quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ensaio de uma Epistemologia Tripartite


Do Prólogo

Há algo aqui dentro que me fascina. Trata-se do conhecimento. A aventura do homem é conhecer as coisas, dentre elas, ele mesmo. Tudo que foi construído, cada palavra, cada gesto, foi fruto de prévia análise e compreensão. Tudo é conhecimento. Não que só exista o que é conhecido, mas que tudo que existe é de potencial conhecimento. Tudo pode ser conhecido, muito embora tudo não será conhecido, pois encontramos óbices a isso, como nossa inteligência ou o próprio devir (a capacidade de transformação das coisas com o tempo).

Logo, é crucial que, para que se entenda a natureza das coisas, até de perguntas fundamentais, de natureza ontológica que seja, destrinchemos o conhecimento. Se entendermos o modo como conhecemos o mundo, entenderemos ele próprio. Se a aventura é de conhecer tudo, certo é que primeiramente conheçamos o conhecimento.

E foi nosso erro não termos começado com esta reflexão. Não nos culpo. Somos uma espécie de 200 mil anos, atingindo nossa configuração comportamental há cerca de 50 mil anos. Portanto, admitindo que não havíamos tanto espírito crítico há 50 mil anos, não há que se culpar dos erros cometidos. A maioria desses erros foram necessários para o nosso desenvolvimento intelectual, para a evolução cultural e para a nossa própria sobrevivência.

Mas estamos em uma era diferente. Não que seja mais evoluída, mas que demanda um modo de conhecimento diferente, mais adequado. O mais certo há 2 mil anos era sobreviver dentro dos mitos e superstições da comunidade, sob pena de se ver longe dela. A comunidade sobrevivia porque pensava como uma unidade, um todo coletivo.

A contemporaneidade mudou este modo de vida. Somos seres individuais, apesar de interdependentes. Nossas diferenças são admitidas até com normalidade. Não somos completamente excluídos da sociedade por sermos diferentes. Esta cena mudou nosso modo de conhecer.

Também, é notável que tais “erros” em tanto contribuíram para nosso pensamento contemporâneo. A evolução do pensamento traduziu mito em metafísica e esta última em ciência. Alquimia tornou-se química e astrologia tornou-se astronomia. Tudo porque algo fundamental havia mudado. E por algo ter mudado é que o previamente aceito como verdadeiro, hoje é entendido como falso.

Persistir no erro, pois, seria o fim. Mentes brilhantes haviam surgido com esse “algo” a mais, revolucionando tudo que encontravam pela frente, enquanto a maioria da população permanecia como espectadora, não entendendo como tais mentes brilhantes haviam mudado o mundo, mas compreendendo que o mundo havia mudado.

Tal população entendia que havia um campo do conhecimento chamado ciência, misterioso, estranho, com alto grau de predictibilidade, mas que se confundia muitas vezes com suas metafísicas e mitologias, também misteriosos, estranhos e com um alto grau de predictibilidade. Apenas mais um campo do conhecimento havia surgido.

Não sabiam que havia um “algo” a mais. Aparentemente era muito difícil de ser entendido. Isto porque só saberiam que havia algo a mais se fizessem uma pergunta fundamental que nunca haviam antes se perguntado. Algo que somente mentes brilhantes haviam se perguntado, há milhares de anos até, cujas tentativas de resposta se confundiam com a própria história do desenvolvimento intelectual da humanidade.

Nesse texto exploro este “algo” a mais.

Da Tripartição

Tentarei explicar da forma mais didática possível. Aqui, reparti todo o conhecimento em três grandes blocos. Não que haja realmente essa divisão, mas que a realidade se organiza de tal forma, tão complexa forma, que para que nós a possamos entender a priori, necessitamos dividi-la em três. Como veremos adiante, é uma divisão conceitual, linguística.

O primeiro grande bloco é o Subjetivo. Subjetivo é tudo aquilo que experimento a partir de meus pensamentos, que surgem e findam de modo introspectivo. Ou seja, é tudo aquilo que crio para que somente seja experimentado por mim. Não se exteriorizam. Quando falo em “justiça”. Cada um estabelece um conceito maleável do que seja a justiça. Nenhum é mais certo ou menos certo do que outro. É apenas diferente. Na medida em que tal conceito é exteriorizado e a comunidade tenta estabelecer um significado comum à justiça, ela perde o caráter de subjetivo (isto será explorado melhor no próximo tópico).

Da mesma forma podemos enquadrar os sentimentos. Muito embora possamos encontrar padrões entre os sentimentos, não se é possível afirmar que todos os sintam de maneira igual. São conceitos que são experimentados de forma completamente introspectiva, criados interiormente e sentidos interiormente. A parcela que não é traduzida para o exterior é o que se denomina de subjetiva.

Assim, ainda que falemos que o amor é a atuação da ocitocina no nosso corpo, aliado a configurações sinápticas no nosso córtex pré-frontal, não conseguimos traduzir exatamente o amor tal qual sentimos. É essa parcela indescritível que chamo de subjetiva.

Quando tratamos de conhecimento subjetivo não adianta qualquer tipo de discussão sobre a sua veracidade ou falsidade. O próprio ato de sentir já configura sua legitimadora (trato das legitimadoras no capítulo seguinte).

O segundo grande bloco é o Intersubjetivo. Trata-se de um sinônimo para a linguagem. Intersubjetivo é todo tipo de conhecimento que se organiza de forma introspectiva, mas se exterioriza, sobrevivendo quase independente no exterior até que alguém a capte e seja capaz de traduzi-la, tornando-a introspectiva novamente. É exatamente esta sobrevivência quase independente que caracteriza o conhecimento intersubjetivo. Quase independente porque ela perde todo seu significado se não houver quem a traduza, mas tem poder de ser altamente influente para aqueles que a comunguem.

Tal é a natureza do Direito. A Lei de um país somente faz sentido quando dentro do mesmo país. Foi criado por seres pensantes, condensando suas pretensões e anseios, organizada em normas, exteriorizada e imposta a todos, para que todos pudessem comungar da mesma linguagem. O Direito existe fora do ser humano, mas dele é dependente, pois sem ele perderia o significado.

Aqui, nota-se claramente a diferença para o conhecimento subjetivo. No conhecimento intersubjetivo, há a possibilidade e até uma enorme necessidade de discussão. É onde pode tocar a filosofia em maior plenitude (tendo em vista ela mesma ser de natureza intersubjetiva).

O terceiro grande bloco é o objetivo. Este é o mais complexo e com mais confusões. Há muito tempo este módulo de conhecimento foi parcialmente ignorado pela filosofia, ou até completamente ignorado por algumas escolas filosóficas. Isto porque objetivo é aquilo que é universalmente constatável, independentemente do pensar humano.

Ora, como seria possível estabelecer um bloco de conhecimentos cuja existência seria completamente independente da nossa, se nós estamos “existindo” e conhecendo? E o que é pior, como identificar o que realmente existe, se estamos imprimindo sempre valores e preconceitos que, de certo modo, modificam o exterior?

Por isso este bloco foi deixado de lado por alguns. E durante muito tempo, somente o subjetivo e o intersubjetivo foram dados como reais. Mas algo mudou. Algo na modernidade, nascido com as revoluções científicas da época, modificou para sempre a forma como conhecemos o mundo.

A primeira tentativa bem sucedida foi a de aplicar uma linguagem (conhecimento intersubjetivo) que se aproximasse o máximo possível da realidade para tentar destrinchá-la. A linguagem mais próxima do objetivo era a matemática. Ora, a matemática é a tradução do exterior por racionalização. Se pego uma maçã, adiciono outra maçã, terei duas maçãs. Isto parecia universal.

Mas isto não eliminava a máxima idealista, ou o pesadelo solipsista, ou seja, de que tudo pode não ser exatamente igual ao que realmente é.

Pouco tempo depois, uma tendência se espalhou por entre os filósofos. A tendência era admitir que tanto faz que seja igual ou não seja igual ao que realmente é. Se estamos vivendo em uma realidade X, esta realidade é que será a verdadeira, pouco importando se ela é mais ou menos real. Afinal, se fosse falsa, continuaríamos a viver nela do mesmo jeito.

Desta forma, a característica crítica da filosofia sobre a verdade cessou quanto à realidade do mundo objetivo, passando este a ser completamente explorado pela ciência, que trabalharia no nível que o mundo objetivo é. Ou seja, a ciência explora a realidade objetiva como se essa fosse real, ainda que não o seja, afinal, não importa que seja ou não.

Assim, podemos identificar que existe uma árvore ali, independendo de nossa reflexão sobre sua real existência. Algo existe ali que chamamos de árvore e não precisamos nos questionar sobre isso. Questionar sobre isso apenas criaria um obstáculo ao conhecimento, não servindo de nada que não seja ser um obstáculo.

Se, porém, modificamos a realidade com um propósito, por exemplo, transformando a árvore em uma bela cadeira de madeira, a cadeira continua a ser objetiva, universalmente constatável. Contudo, sua função é construída como linguagem. A função de “sentar-se” é intersubjetiva.

Somente existe algo universalmente constatável porque há características universalmente constatáveis. Não há algo intersubjetivo ou subjetivo que seja universalmente constatável, ou então algo objetivo que não o seja.

O próximo tópico é justamente sobre isso. As legitimadoras. É onde identifico o maior erro das pessoas, responsável por ainda haver más compreensões da realidade. Aquele “algo” a mais que falei no prólogo.

Das Legitimadoras.

Não há nada de novo nas legitimadoras. Admito que são coisas extremamente lógicas – óbvias até – e talvez por serem óbvias, pouco são pensadas. Porém, é necessário refletir sobre elas para termos um insight e parar de cometer erros.

Isto porque cotidianamente confundimos as três modalidades de conhecimento. Confundimos o que só nós pensamos (subjetivo) com o que é discutido na comunidade (intersubjetivo) e com o que nos é tão exterior que independe de nossa reflexão (objetivo).

Muitas vezes estabelecemos que é errado ser homossexual, quando “errado” diz respeito a nossa reflexão subjetiva e o homossexualismo se condensa nas três outras modalidades. Claro que tal reflexão não deve ser considerada um erro (afinal eu estaria me contradizendo), mas que não deve ser exteriorizada em linguagem, por não ser intersubjetiva.

Isto porque a própria moral é uma construção subjetiva. E pára por aí. Se ela se exterioriza, passa a ser um código de conduta que deve ser construído para benefício de todos, através da linguagem, como a proibição do homicídio (que mais tarde pode adquirir uma maior coercibilidade, através da Lei).

Outro exemplo é a pretensão de estabelecer que algo existe objetivamente porque um indivíduo ou uma coletividade “sente” que esse algo existe, estabelecendo a força do sentimento como prova incontestável de sua existência. Como é o caso das metafísicas (ou mitologias) atuais.

Daí surge a definição de Legitimadora.

Diz-se legitimadora a atribuição de características próprias do conceito do módulo em questão. Por exemplo, se tratamos de algo objetivo, a legitimadora é a atribuição de alguma característica ínsita ao conceito de objetivo, ou seja, que a coisa pode ser constatada universalmente. Ou seja, algo só é objetivo quando for universalmente constatado, e se sabe que é universalmente constatado quando apresenta evidências dessa constatação, sejam medidas ou quaisquer outras demonstrações.

Por exemplo, sabe-se que existe uma árvore lá fora simplesmente porque todos podem coletar características que são universalmente reconhecidas. Por exemplo, se eu estivesse com um amigo e perguntasse para ele se ele vê uma árvore, ele certamente diria que a vê, porque reconhece que há um objeto lá com comprimento, forma, espessura e todos os demais atributos que aprendeu a reconhecer como uma árvore.

Ainda que este amigo não compreendesse o significado de árvore, poderia ver um objeto. Ainda que não pudesse ver o objeto, poderia senti-lo. Porém, se esgotados todos os sentidos, suspenso estaria o exame crítico de avaliar a existência ou não da árvore.

Aqui se faz necessário a diferença entre “sentimento” e “sensação”, esta última equivalendo a “sentido”. Enquanto o sentimento é complexo e deriva de causas que podem ser mal compreendidas (sendo, portanto, legitimadoras subjetivas), os sentidos que possuímos são meio de comunicação entre nós e a realidade, perfazendo meio mais fiel de conhecê-la (já tratamos sobre isso).

Claro que se pode haver distorções dos sentidos, como o exemplo de miragens e psicoses, mas tais efeitos apenas se aplicam esporadicamente, não sendo universais nem em tempo nem entre indivíduos.

Assim, se digo que elétrons existem, muito embora não os tenha visto, certo é que pude constatá-lo de inúmeras outras maneiras, como por exemplo observando sua interferência em aparelhos, confirmando predições teóricas. Desta forma, é possível dizer que:

A legitimadora objetiva é uma constatação de algo por meio mais universal possível, como provas empíricas, medições, ou simplesmente características observadas pelos sentidos.

A legitimadora subjetiva é o próprio pensamento. Basta dizer que se “acha” alguma coisa, ou pensar em alguma coisa, para que ela exista subjetivamente. A atribuição de legitimadora subjetiva ocorre quando um conceito adquire forma (pouco definida) através do pensamento.

A legitimadora intersubjetiva é a própria linguagem que possui destinatários que a compreenda. Para existir, é necessário que ela faça sentido em uma comunidade. Ao contrário da legitimadora subjetiva, a intersubjetiva tem a capacidade de dar forma bem definida ao conceito, delimitando-o.

Desta forma, é lógico e coerente que cada módulo de conhecimento tenha uma legitimadora correspondente a ela. Não é prudente misturá-las. Logo, só se pode reconhecer algo como objetivamente existente quando se constata por meios objetivos sua existência. Isto é algo óbvio, mas muito pouco compreendido.

Se algo se admite existente, mas não possui qualquer legitimadora objetiva, restando no máximo uma intersubjetiva, por exemplo, não se é possível afirmar que seja qualquer outro tipo de conhecimento que não seja o intersubjetivo. Portanto, se digo para o meu filho que Papai Noel existe, mas não ofereço qualquer tipo de medida para ele constatar tal existência, a figura de Papai Noel não passará de pura linguagem.

Não afirmo aqui que as coisas que não são constatadas são inexistentes. Apenas afirmo que o julgamento de sua existência está suspenso, redirecionado para os outros dois módulos, aguardando constatação objetiva. Ainda, por mais que se queira, não se poderá, jamais, afirmar sua existência baseado em legitimadoras subjetivas ou intersubjetivas.

Por mais que se queira, o Direito nunca será uma árvore.

Não que o Direito seja mais real ou menos real do que uma árvore, mas que sejam reais de maneiras diferentes, em módulos diferentes. A árvore deixará de ser como é somente com a evolução natural da própria árvore e suas características. O Direito deixará de ser como é somente através da linguagem.

Aqui vale meu apontamento. Muito do que você acredita, meu caro leitor, pode ser uma confusão entre os módulos, então procure melhor avaliar criticamente o mundo em que vive. Não ache que a verdade objetiva vem através dos homens, nem que a verdade subjetiva venha através das palavras, etc. Não confunda, como estamos confundindo desde que aprendemos a conhecer.

Algumas ideias adicionais

Argumentum ad populus – Trata-se de uma falácia, significando “argumento do povo”. Somente porque um fato que seria objetivo é compartilhado por muitos como se fosse a verdade, não significa que seja verdade. É uma péssima tentativa de atribuir legitimidade intersubjetiva a algo objetivo. Como é o caso da maioria das superstições.

Decisões introspectivas – As decisões que começam em cada indivíduo e não se exteriorizam devem, sob pena de violação do conhecimento subjetivo, ser respeitadas. É o caso de certa pessoa que opta por um estilo de vida ou uma atitude que julga ser bom para si, não influindo em nada na vida dos outros. Nada mais certo do que respeitar tal decisão, pois tem legitimidade subjetiva.

Legitimação da Lei – Como já falei, é intersubjetiva. Porém, foi imposta, não sendo fruto de um consenso atual (verdadeiramente). Funciona assim como qualquer linguagem, mas tem uma coercibilidade interna que a sustenta, punindo qualquer “fora-da-lei” que tente a questionar.

PS.: O título é "epistemologia" por não somente falar da divisão do ser das coisas (pois aí seria uma ontologia), é epistemologia pois constrói uma teoria de conhecimento que deriva desta ontologia e cria métodos de conhecimento próprios, através de classificações e propriedades.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O Nascimento da Filosofia




Aprendemos, quando crianças, o que nos diferencia dos animais. São várias as respostas dadas, inteligência superior, capacidade moral, autoconsciência, cultura, etc. Muitas das quais estão sendo colocadas em cheque com o tempo. Mas uma diferença é fundamental, talvez a causa de muitas vantagens e desvantagens: a imaginação.
E talvez seja por isso que sejamos os únicos animais a formular crenças. Calma, não quero dizer que as crenças são puramente imaginativas (oníricas, ou algo do tipo). Podemos partir do princípio de que tudo são crenças, mas não quero discorrer muito por este viés epistemológico.
É porque, quando adquirimos a capacidade de imaginar, adquirimos, por conseguinte, a capacidade de imaginar o mundo de uma forma que ele seja de uma maneira diferente daquela que nos deparamos em princípio. Nasce a capacidade de questionar. “Talvez o mundo seja diferente daquilo que vejo”.
Porém, como tudo dentro do caos, a capacidade de questionar levou à necessidade de obter respostas, que também necessitavam de imaginação. Imaginação por imaginação, o caos estava instaurado. E sabemos perfeitamente que muito de complexo e inimaginável pode surgir dessas conclusões.
Então faço uma crítica genealógica. Voltemos ao passado no momento em que adquirimos a capacidade de imaginar. Surgem as questões, nascem as necessidades de resposta.
Calma. Antes de querer respondê-las, tente saber o que você pode perguntar e tente formular uma base para aquilo que você vai responder.
Temos de ter a noção de que somos pessoas cobertas de respostas para tudo, entregues a nós desde que nascemos. Porém, não sabemos as perguntas. Como podemos ter as respostas sem saber as perguntas? Isso torna tais respostas tão sem sentido!
Todo seu conhecimento está baseado em respostas sem perguntas.
Isso me lembra muito aquele livro/filme “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, em que dois seres hiperinteligentes fazem um supercomputador (chamado "O Pensador Profundo") para tentar descobrir a resposta para “a vida, o universo e tudo o mais”, a resposta, dada pelo Pensador Profundo, depois de milhares e milhares de anos, é “42”. Inconformados com a resposta, os seres dizem ao tão complexo computador que não era essa a resposta que procuravam. O computador retruca que eles próprios não sabiam qual era pergunta, afirmando em seguida que a resposta em si (42), só poderia ser entendida quando soubessem a pergunta.
Para obter a pergunta, teriam que fazer um computador tão complexo, que necessitaria de unidades vivas, atuando em conjunto para obtê-la. E esse computador era a terra e as unidades seríamos nós.
O que se depreende então é a lição do filme que nos é dada: talvez nossa função precípua aqui não seja obter sempre as melhores e mais fundamentais respostas, mas saber quais são as melhores e mais fundamentais perguntas.
Nasce, então, a capacidade de filosofar.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

James Randi e seu feroz combate à fraude psíquica



Descrição do vídeo no TEDLegendário cético James Randi toma uma dose fatal de comprimidos homeopáticos para dormir no palco, dando início à 18 minutos de fortes críticas e acusações às crenças irracionais. Ele ainda lança um desafio aos médiuns ao redor do mundo: Prove que o que faz é real, e eu lhe darei um milhão de dólares. (Nenhum vencedor até o momento.)



terça-feira, 31 de julho de 2012

Níveis de moralidade segundo Kholberg


Nos meus estudos independentes de criminologia, sempre me fascinei pela influência da moral no comportamento humano. Afinal, eu me perguntava, o que faz alguém cometer uma atrocidade como um crime perverso? O senso comum nos afirma várias coisas, e se você sair pela rua perguntando o que as pessoas acham que é o motivo de certa pessoa cometer um crime, certamente não saberão uma resposta técnica adequada.

Alguém realiza uma ação sempre esperando um bom resultado, um interesse. Se uma pessoa rouba outra, certamente o faz esperando o produto financeiro. Alguns crimes mais perversos, como um homicídio qualificado, pode ter como produto o prazer do criminoso em matar outrem. Este criminoso sente prazer por apresentar problemas psicológicos, como a psicopatia.

Mas, para balancear as condutas, há a existência de maus resultados, ou resistências às condutas. Podemos dar como exemplo a ação da polícia, que deveria ser intensa para ser efetiva, sentimentos religiosos e também uma que acredito ser a principal, a moral. Difícil é definir a moral, mas entendo ser um sentimento, adquirido por aprendizagem de conduta (não de ideologia), que direciona as condutas de quem o sente, direcionando-a para aquilo que acredita ser o bem e afastando-a daquilo que acredita ser o mal.

Lawrence Kohlberg, psicólogo estadunidense nascido em 1927, dedicou sua vida ao estudo da moral, e contribuiu massivamente para o entendimento do que possa ser a moral. Fazendo entrevistas com diversas pessoas, organizou um quadro de desenvolvimento da moral, dividindo-a em níveis, do mais baixo ao mais alto. São três níveis divididos em dois estágios cada uma, os quais apresento logo embaixo.


Nível 1 (Pré-Convencional)
1. Orientação "punição obediência"
(Como eu posso evitar a punição?)
2. Orientação auto-interesse (ou "hedonismo instrumental")
(O que eu ganho com isso?)
Nível 2 (Convencional)
3. Acordo interpessoal e conformidade
(Normas sociais)
(Orientação "bom moço"/"boa moça")
4. Orientação "manutenção da ordem social e da autoridade"
(Moralidade "Lei e Ordem")
Nível 3 (Pós-Convencional)
5. Orientação "Contrato Social"
6. Princípios éticos universais
(Consciência principiada)

Nível pré-convencional

O nível pré-convencional de argumentação moral é particularmente comum em crianças, embora adultos também possam exibir esse nível de argumentação. Nesse nível, o juízo da moralidade da ação é feito com base em suas consequências diretas. O nível pré-convencional consiste apenas do primeiro e segundo estágios de desenvolvimento moral, e está preocupado apenas com o próprio ser de uma maneira egocêntrica. Alguém com uma moral pré-convencional ainda não adotou ou internalizou as convenções da sociedade sobre o que é certo ou errado, mas, em vez disso, foca-se grandemente em consequências externas que certas ações possam ter.
estágio 1 é o do castigo e obediência. Nesse estágio, a moralidade para a criança consiste em observar literalmente as regras, obedecer à autoridade e evitar o castigo. Por exemplo, uma ação é vista como errada apenas porque aquele que a cometeu foi punido. "Da última vez que fiz tal coisa, apanhei, então não farei de novo". Quanto pior a punição, pior é visto o ato. O ponto de vista é egocêntrico, o ator não distingue entre seus interesses e os dos outros, que o ponto de vista dos outros pode ser diferente do seu. Há uma deferência para aqueles vistos como de maior poder ou prestígio.
estágio 2 é aquele em que a pessoa é movida apenas pelos próprios interesses. O comportamento moral consiste em seguir regras quando forem do interesse imediato do ator, e em reconhecer que os outros também têm seus próprios interesses, o que pode justificar uma troca entre atores, integrando interesses recíprocos, mas apenas até o ponto em que isso serve aos interesses do próprio ator. O ponto de vista inclui, portanto, o de outros indivíduos, numa base instrumental, ocorrendo uma certa descentração, embora mínima. O respeito pelos outros não está baseado em lealdade ou respeito mútuo, mas no sentido de "uma mão lava a outra". A falta de perspectiva do estágio 2 também não pode ser confundida com o estágio 5, pois aqui todas as ações têm o propósito de servir os próprios interesses ou necessidades do próprio indivíduo.

Nível convencional

O nível convencional de argumentação moral é típico de adolescentes e adultos. Aqueles que argumentam de uma maneira convencional julgam a moralidade das ações comparando-as com as visões do mundo e expectativas da sociedade. A moralidade convencional é caracterizada por uma aceitação das convenções sociais a respeito do certo e do errado. Nesse nível um indivíduo obedece regras e segue as normas da sociedade mesmo quando não há consequências pela obediência ou desobediência. Aderência a regras e convenções é de algum modo rígida, entretanto, a adequação da aplicação de uma regra ou a justiça dela é por vezes (poucas) questionada.
estágio 3 é o das expectativas interpessoais mútuas, e do conformismo, em que o ser entra na sociedade preenchendo papéis sociais (identidade dos papéis). O correto é atender às expectativas das pessoas de referência, ser um "bom moço", no papel de filho, irmão ou amigo, tendo sido ensinado que há um valor inerente a tal comportamento. O ponto de vista inclui as perspectivas dos outros e sentimentos compartilhados, que têm precedência sobre os interesses individuais. A argumentação do estágio 3 pode julgar a moralidade de uma ação valorando as suas consequências em termos dos relacionamentos de uma pessoa, a qual agora começa a incluir coisas como respeito, gratidão, e a "regra de ouro". Desejo de manter as regras e autoridade existe apenas manter esses papéis sociais. As intenções das ações desempenham um papel mais significante na argumentação neste estágio; "eles têm boas intenções…".
estágio 4 é aquele em que a pessoa se move com base na obediência a autoridade e ordem social. O correto é cumprir seu dever na sociedade, preservar a ordem social, e manter o bem-estar da sociedade ou do grupo. O ponto de vista é o do sistema ou do grupo social como um todo, e considera os interesses individuais dentre desse quadro de referência mais amplo. O argumentação moral no estágio quatro está além da necessidade de aprovação individual exibida no estágio três; a sociedade deve aprender a transcender necessidades individuais. Um ideal (ou ideais) central frequentemente prescreve o que é certo ou errado, como no caso do fundacionalismo. Se uma pessoa viola uma lei, talvez todo mundo possa – portanto, há uma obrigação e um dever em manter leis e regras. A maioria dos membros ativos da sociedade permanecem no estágio quatro, onde a moralidade é predominantemente ditada por uma força externa.

Nível pós-convencional

O nível pós-convencional, também conhecido como "nível principiado", consiste dos estágios cinco e seis do desenvolvimento moral. Há uma crescente percepção de que os indivíduos são entes separados da sociedade, e de que a perspectiva do próprio indivíduo pode tomar precedência sobre a visão da sociedade; eles podem desobedecer regras inconsistentes com princípios universais que possam ser justificados. Essas pessoas vivem de acordo com seus próprios princípios abstratos sobre o certo e o errado – princípios que tipicamente incluem direitos humanos básicos. Devido ao fato desse nível colocar a "natureza do ser antes dos outros", o comportamento de indivíduos pós-convencionais, especialmente daqueles no estágio seis, podem ser confundido com o daqueles no nível pré-convencional. As pessoas que exibem uma moralidade pós-convencional veem as regras como necessárias e como mecanismos mutáveis – idealmente, as regras podem ajudar a manter a ordem social geral e a proteger os direitos humanos. As regras não são ditos absolutos que devem ser obedecidos sem questionamentos, podendo ser desobedecidas ou modificadas com base em justificativas universais.
estágio 5 é o dos direitos pré-existentes e do contrato social ou utilidade. A visão de mundo de quem está neste estágio é a de que no mundo existem pessoas de diferentes opiniões, direitos, e valores. O correto é apoiar os direitos, valores e contratos jurídicos de uma sociedade, mesmo quando estão em conflito com as normas concretas do grupo. As leis são consideradas como contratos sociais em vez de um mandamento rígido. Aquelas que não promovem o bem-estar geral devem ser modificadas quando necessário para adequar-se ao "bem máximo para o maior número de pessoas". Isso é atingido através da decisão da maioria, e do comprometimento inevitável. Muitos dos atos de um governo democrático são baseados no estágio cinco.
estágio 6 é o dos princípios universais éticos. As leis e acordos sociais só são válidos na medida em que derivam de tais princípios. Assim, quando a lei viola esses princípios, é preciso agir de acordo com eles. Os princípios em questão são os da igualdade dos seres humanos e o respeito por sua dignidade como indivíduos, considerados como fins e não enquanto meios, como na filosofia de Immanuel Kant. Existe uma capacidade de se imaginar no lugar do outro. O ponto de vista é universalista, transcendendo grupos e sociedades particulares, e se baseia numa ética válida para todos, da qual derivam arranjos e instituições concretas. Os direitos escritos formalmente não são necessários, pois os contratos sociais não são essenciais para a ação moral deôntica. O indivíduo age porque é o correto a ser feito, não porque tal ação é instrumental, esperada, legal, ou foi previamente acordada. Para Kohlberg, raras pessoas atingem este estágio.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Como Einstein via o Mundo


Extrato do livro "Como Vejo o Mundo" de Albert Einstein:

"Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas.

E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida — corpo e alma — integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito.

Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo.

Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as desprezava.

Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.

A virtude republicana corresponde a meu ideal político. Cada vida encarna a dignidade da pessoa humana, e nenhum destino poderá justificar uma exaltação qualquer de quem quer que seja. Ora, o acaso brinca comigo. Porque os homens me testemunham uma incrível e excessiva admiração e veneração. Não quero e não mereço nada. Imagino qual seja a causa profunda, mas quimérica, de seu sentimento. Querem compreender as poucas idéias que descobri. Mas a elas consagrei minha vida, uma vida inteira de esforço ininterrupto.

Fazer, criar, inventar exigem uma unidade de concepção, de direção e de responsabilidade. Reconheço esta evidência. Os cidadãos executantes, porém, não deverão nunca ser obrigados e poderão escolher sempre seu chefe.

Ora, bem depressa e inexoravelmente, um sistema autocrático de domínio se instala e o ideal republicano degenera. A violência fascina os seres moralmente mais fracos. Um tirano vence por seu gênio, mas seu sucessor será sempre um rematado canalha. Por esta razão, luto sem tréguas e apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, contra a Itália fascista de hoje e contra a Rússia soviética de hoje. A atual democracia na Europa naufraga e culpamos por esse naufrágio o desaparecimento da ideologia republicana. Aí vejo duas causas terrivelmente graves. Os chefes de governo não encarnam a estabilidade e o modo da votação se revela impessoal. Ora, creio que os Estados Unidos da América encontraram a solução desse problema. Escolhem um presidente responsável eleito por quatro anos. Governa efetivamente e afirma de verdade seu compromisso. Em compensação, o sistema político europeu se preocupa mais com o cidadão, com o enfermo e o indigente. Nos mecanismos universais, o mecanismo Estado não se impõe como o mais indispensável. Mas é a pessoa humana, livre, criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento.

A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem... Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ignomínia.

No entanto, creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político.

O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram. Aureolada de temor, é a realidade secreta do mistério que constitui também a religião. Homens reconhecem então algo de impenetrável a suas inteligências, conhecem porém as manifestações desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Homens se confessam limitados e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, soa profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer idéia de um ser que sobreviva à morte do corpo. Se semelhantes idéias germinam em um espírito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta.

Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida. Tenho uma intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para compreendê-lo fique sempre desproporcionado, vejo a Razão se manifestar na vida."

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Punição?



Hoje vi uma inscrição na parede, "punição aos torturadores do regime militar!". Sem querer entrar no mérito da questão, faço uma observação mais formal: parece-me que, às vezes, confundimos justiça com vingança. Não me parece lógico querer que haja punição a pessoas que puniram outras, ainda que discordemos da razão desta última.

Certo, entendo que esta ideia pode parecer um contrário-senso, mas, se continuarmos a estabelecer a mesma lógica, pode ser que surgisse alguém, detentor de poder, que, ao discordar do nosso posicionamento, quisesse também se vingar, punindo-nos.

Entendo que, ao final, inevitavelmente, constituir-se-ia nossa extinção, nessa infindável cadeia de vinganças. Depreendemos, pois, que a vingança, inevitavelmente, gera nossa própria destruição, pois nosso rival (ao entender o mesmo), sentindo-se injustiçado, não fará justiça, fará, ao contrário, uma nova vingança.

Justiça, pelo contrário, direciona todos rumo à paz social, estabelecendo que, o que vemos hoje como punição (como, por exemplo, a suspensão do direito à liberdade) seja, na verdade, utilizada para fins de ressocialização, ou seja, readaptação ao sistema social.

Pode-se, também, utilizar o argumento de que nosso sistema carcerário não comporta a ideia de reabilitação. Isso não é desculpa para respaldar a vingança. O primeiro passo para que tenhamos um sistema eficiente de ressocialização é entendermos a real função deste sistema.

A punição, desta forma, é um ato imoral, desumano, que se origina desse sentimento de injustiça que surge em determinadas situações, que, por sua vez, deve ser redirecionado para o bem do próprio sujeito ativo da injustiça.

Não é à toa que duas grandes filosofias da moral (a cristã e a budista) evocam a ideia do perdão e reprimem o sentimento de vingança.

Só há harmonia se houver justiça, só há justiça se houver humanidade, só há humanidade se não houver vingança.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ensaio de um novo tratado teológico.


Todo fato imanente[1] é passível de demonstração probatória. Isto quer dizer que todo fenômeno (fato imanente, direcionado ao mundo dos acontecimentos) é passível de dilação probatória. Se um fato é impossível de ser provado, ele não será imanente, não correspondendo em nenhum momento com o mundo material. Sendo impossível de ser provado, irrelevante é para o conhecimento humano.
A necessidade de dilação probatória se dá como remédio à arbitrariedade filosófica constatada através dos tempos. Durante toda a existência humana, valores surgiram para definir causas e explicar fenômenos. Para cada teoria, apenas eram alegados motivos de ordem metafísica[2], longe da cognição objetiva[3]. As explicações eram dadas a partir de valores subjetivos, “achismos”, ou até mitos.
Nenhuma ideia surge do nada. O algo que traz a ideia à tona, pelas explicações de Aristóteles, são os eventos materiais, constatados no mundo dos fenômenos. Este é o materialismo aristotélico. Antes de ter ideia de “Trovão”, necessário é ouvir o estrondo por ele emitido, só aí podendo conceituá-lo. Se nunca tivéssemos ouvido um trovão, esta ideia jamais teria existido.
O estabelecimento da ideia pode ser dar de forma natural ou sintética. É natural quando a ideia surge diretamente de um evento material. É sintética quando se trata de uma invenção humana, para lhe servir como instrumento. Trovão, chuva, casa, homem, mulher, são exemplos de ideias puramente naturais. Processo, aritmética, são exemplos de ideias sintéticas (importante notar que não há ideias puramente sintéticas, pois, como visto, as ideias sempre são decorrentes de eventos materiais).
A ideia de Deus não nasceu do nada. Deve, como argumentado, ser uma ideia derivada de um acontecimento material. Isto não se contrapõe a qualquer religião, principalmente as abraamânicas[4], por seu caráter de Religião Revelada. Logo, pelo menos algum elemento deverá ser traduzido em um evento material, muito embora essas religiões tenham características majoritariamente transcendentes.
“Ônus da prova” diz respeito ao dever de provar. Diz-se “ônus”, pois a produção de provas é uma diligência na qual se empenha esforço. Tem o dever de provar, aquele que alega a condição, o fato, o ato, ou a constituição de outras alegações, isto é, o emissor da teoria. O ônus de prova da existência de Deus cabe a quem alega a sua existência, não podendo ser, este dever, invertido.
Porém, a senso comum, é considerado prova da existência divina a experiência subjetiva do encontro com Deus, através de orações e milagres. É de se considerar que uma prova, para ser válida, deverá ter caráter objetivo, verificável por todos, desconstituindo, de início, a possibilidade de uso desse tipo de prova.
Aqui é que se vira a mesa. Só porque um evento material se dá por caráter puramente subjetivo, não significa que ele não exista ou que possua outras explicações que não as alegadas pelo emissor. Porém, se existente, é possível haver uma “objetivação” deste evento, simplesmente estudando as suas causas. Acontece que, por tais eventos acontecerem no cérebro humano, mesmo que em caráter subsidiário (interação entre alma e cérebro, pela teoria da alma), não são possíveis de objetivação pela ciência moderna, tendo em consideração a complexidade de tal órgão.
Faz-se aqui a ressalva: só porque algo não é explicado cientificamente, não significa que a alegação do emissor é verdadeira. É de praxe a igreja católica, de forma muito perspicaz, utilizar do ceticismo para atribuir a característica de “milagre” a um evento apenas em última instância, quando já não há mais explicações científicas para aquele evento.
Porém, como é de se saber, muitos dos antigos “milagres”, foram desvendados com o passar do tempo, adquirindo explicações científicas. Desta forma, aqueles “milagres” deixaram de ser “milagres”? E os reconhecidos como tal agora, não o deixarão de ser também, futuramente?
Disso podemos entender que a aplicação de uma teoria de forma subsidiária não é possível, por tratar-se de uma falácia[5]. A teoria deve se dar de forma ativa, e, ainda que seja temporal, não perca futuramente sua veracidade (por exemplo, as teorias newtonianas da gravitação não foram negadas pelas de Einstein, mas apenas complementadas).
Também, é de se explicar, a contrário do que acredita o senso comum, que muitas dos eventos causadores dos fenômenos religiosos já possuem explicação científica. É o caso da esquizofrenia para os fenômenos de possessão, ou simplesmente o poder psicológico da mente em alterar, temporariamente, a percepção da realidade através de um fenômeno auto-induzido, como é o caso de materialização dos espíritos presente no espiritismo.
Desse modo, as explicações dos fenômenos religiosos que ainda não são possíveis de verificação objetiva, ficam apenas suspensas, até que seja possível apurar suas causas. Também se aplica a esse pensamento todos os eventos sobrenaturais subjetivos, mas que, por essa mesma característica, não podem, por enquanto, ser objetivados.
Contudo, admitindo-se uma presunção de boa-fé objetiva, não é possível afirmar a falsidade de qualquer alegação até a apuração refinada dos fatos, visto que, ao formar um juízo de valor negativo sobre ele, poder-se-ia estar prejudicando um evento verdadeiro alegado pelo emissor. Portanto, um juízo de valor positivo por alguém que não é partícipe de tais eventos como um juízo de valor negativo são juízos equivocados.
Desta forma, de preferência, deve-se haver a abstinência de juízo de valor, ressalvando o direito do receptor de questionar o emissor, por todos os meios que tiver acesso, inclusive propondo teorias alternativas, ou esclarecendo o emissor das teorias de constatação já objetivada.
Quanto à própria existência de Deus, tais argumentos revelam particularidades e semelhanças. O conhecimento do emissor da existência de Deus deve também ser objetivada, mas, alegando o emissor que Deus é o criador de todas as coisas, é necessário que seja Ele o “causador das causas”.
Infelizmente, tal teoria também é dúbia. Explica-se. É de conhecimento objetivo que o surgimento do universo se deu a, aproximadamente, 13,7 bilhões de anos, através de uma explosão que criou o próprio espaço-tempo. Sendo assim, não existia nada antes do big bang. Não havia tempo, nem espaço. Quanto mais nos aproximássemos, em suposição, desta explosão, mais viríamos o tempo diminuir, até parar de vez, no seu primeiro instante.
Ocorre que tal explosão é fruto de uma anomalia quântica chamada “flutuação quântica” e que, se houver apenas uma realidade, tal anomalia não teve causa alguma, por sua própria natureza. Porém, em havendo mais de uma realidade, como supõe a teoria das cordas (parte da física teórica que ainda não tem conjunto probatório para definir sua existência), é possível que haja uma causa.
Portanto, apesar de não ser possível o universo ser criado por alguém antes do big bang, é possível – portanto, uma suposição – sua criação para além de tal explosão. Porém, como visto, isto se dá por decorrência de uma teoria ainda não provada (a teoria das cordas ainda está em vias de ser provada).
Isto é, de qualquer forma, quanto a Deus na função de criador de todas as coisas, seria necessária uma dilação probatória extremamente longa (não seria preciso apenas provar a teoria das cordas, como também ser o universo sintetizado por algum Ser de uma realidade paralela). Além do mais, essa não é a única teoria de realidade sintética existente.
Enfim, um juízo de valor, nos casos explicitados, até que não sejam analisadas as provas objetivas, é um juízo teoricamente impraticável. Podemos até fazer uma analogia com a teoria da física apresentada mais acima: pode-se entender a relevância da teoria, trabalhar com ela, mas não viver como se ela fosse verdadeira ou falsa, nem emitir juízos de valor. Não se poderia emitir tais juízos pois pode ser desrespeitoso afirmar a um físico teórico que sua teoria não vai dar em nada por ser falsa, dentre outros inúmeros motivos.
A abstinência se dá pelo ceticismo, em se tratando de vários eventos sobrenaturais, ou pelo agnosticismo, em se tratando da existência de Deus. Não se emite juízo de valor, apenas uma demanda pela prova objetiva do emissor, uma possibilidade de contra-argumentação, a proposição de teorias diversas mais viáveis, ou o devido esclarecimento através de uma teoria já previa e objetivamente comprovada.
Tal é o sentido que se caminha no agnosticismo.

PS: Sobre o aspecto ético e moral, logicamente podem ser utilizadas como pauta as filosofias cristã e budista, que definiram muito do que é considerado moral hoje. Isto porque, ainda que esta mesma moral seja uma construção de aprendizado, ela deve ser utilizada a benefício da coletividade, o que se perfaz pelos princípios cristãos e budistas. O Humanismo também deve ser levado em consideração, lembrando que deve ser adicionado a ele o sentimento cosmológico da ética ambiental, vendo-se a natureza como instância acima do homem.
PPS: Importantíssimo acrescentar que não se pode invocar a bíblia como instrumento probatório objetivo, pois, se assim o fosse invocado, abriria a necessidade de se provar a veracidade da própria bíblia, que por nada mais é constatável, senão pelas palavras da própria bíblia. Cria-se, então, um argumento tautológico: é verdadeiro pois tem escrito que é verdadeiro.


[1] Entenda-se como “material”, pertencente ao mundo dos fenômenos.
[2] Baseado em simples aparências.
[3] Os fatos alegados não tinham como ser confirmados, cabendo apenas ao receptor da teoria se convencer ou contraditar a opinião do emissor.
[4] Cristianismo, Judaísmo e Islamismo são exemplos de religiões abraamânicas (de Abraão)
[5] Falha argumentativa.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A Metafísica da Igualdade e do Bem-Estar Social.

O mundo não está preparado para uma igualdade. As diretrizes de uma igualdade material (tratar desigualmente os desiguais na medida de sua desigualdade) às vezes parecem insuficientes para atingir uma igualdade de fato. Claro que devem haver diretrizes, mas estas devem vir mais a fundo, não apenas no regimento pátrio, como um princípio dirigente, mas como um pensamento internalizado na mente de cada cidadão, uma diretriz moral.

Daí a necessidade de uma metafísica da igualdade. Ou seja, é necessário desenvolver uma teoria que, pelo menos em tese, facilite o entendimento de uma sociedade igualitária. E lembrem-se, sobretudo, que igualdade remete a uma ideia também de unicidade, o que explicarei mais adiante.

A dificuldade de uma aceitação do conceito de igualdade formal (todos são iguais perante a lei) é produto de um mal-entendido acerca de toda a filosofia individualista do início do século XX. A sociedade do século XXI, descendente desse mal-entendido, tornou-se demasiadamente individualista, desconsiderando seu caráter de “sociedade” em si mesma.

Somos seres sociais, e esta máxima nos guia para um entendimento de que o individualismo filosófico não deveria negar o sentimento social, mas se compatibilizar com ele. Ou seja, é a valorização do individualismo, sem a negativa do sentimento social. E se somos, de fato, seres sociais, devemos criar uma teoria que reforce esse caráter.

Sendo uma sociedade, podemos então inferir que somos um sistema. Esse ponto é essencial para a metafísica da igualdade. Se somos um sistema, implicações da teoria dos sistemas é aplicada a nós. Uma destas implicações é que somos um conjunto mais ou menos uniforme, com comportamentos padronizáveis, desde que vistos como um sistema, ou seja, de forma cosmológica (de cima).

A característica de uniformidade faz toda a diferença em um sistema. Pois, se somos uniformes, devemos ser cosmologicamente identificados como formalmente iguais. E esta ideia tem uma implicação da qual passo a discorrer.

Percebemos logo de início que atos individuais podem propagar-se para o resto do sistema. Esta dedução é um produto da igualdade, e de extrema importância para sua manutenção. Explico. Como um sistema está baseado na ideia de retroalimentação de atos, um ato praticado pelo elemento A em direção ao elemento B, mudará os futuros atos do elemento B, que passará a influenciar vários outros elementos, em cadeia, até voltar novamente a A.

Como deve ser difícil visualizar este evento de forma apenas lógica, ilustrarei um pouco. Imagine que Fulano está pensando em se suicidar, quando, em uma conversa informal no ônibus com Sicrano, percebe que a vida não é lá tão má quanto havia pensado precedentemente (Sicrano é muito mais problemático...). Um ato produzido por Sicrano, mudou um ato de Fulano (suicídio), que iria atingir seus familiares, colegas e amigos (como causar um sentimento de luto, por exemplo), que, inevitavelmente, atingiria um dia Sicrano novamente, em caráter de retroalimentação.

E isso não se dá apenas em eventos grandes como o suicídio. Simples atos como pegar um ônibus – que interferem na vida daqueles que estão dentro do ônibus, ou no próprio trânsito – ou em boas ações. E é esse ponto que quero chegar. O karma realmente existe. Claro que às vezes o feitiço pode virar contra o feiticeiro, mas, de forma geral, boas ações gerarão um efeito retrógrado de boas ações. Fazer o bem geralmente tem efeitos positivos na sua vida.

E é esse ponto que é importante, a igualdade gera um bem-estar social de forma direta. Mas não devemos ver esse conjunto teórico de forma egoísta, pois isso é um erro que contradita diretamente o princípio de igualdade. Esse princípio objetiva o bem-estar social, não o favorecimento individual. Ademais, não existe mais um favorecimento individual sem uma implicação em todo o resto da sociedade.

Atitudes de favorecimento ilícito, por exemplo, como a corrupção, ou a sonegação fiscal terão efeitos negativos na sociedade e um efeito-resposta ao criminoso. De imediato teremos uma resposta indireta, na forma de uma qualidade de sociedade menos desenvolvida que diminuirá a qualidade da vida desse criminoso. De forma direta, mas mediata, teremos a resposta de sanção social, na figura de uma pena.

Nesse mecanismo, o desenvolvimento acaba sendo um produto final. O sistema objetiva o desenvolvimento para se reafirmar como um sistema ainda mais forte. Sendo essa força traduzida por uma estabilidade ainda maior, ou seja, uma igualdade ainda maior, podemos deduzir que o bem-estar social produzido por aqueles atos geram preceitos de uma igualdade formal crescente.

Conclusão a que chegamos é que igualdade ideal (apenas uma diretriz), tem a capacidade de gerar atos que aumentem o bem-estar social, que, por sua vez, aproximam a sociedade de uma igualdade real. Retroalimentação pura. Então, o que você está fazendo aí parado? Contribua com a sociedade, meros atos têm a capacidade de mudá-la constantemente, em um efeito borboleta incessante.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Tragédia do Midas Filosófico.

Deletado.
(era um desabafo, mas o melhor meio de superar uma dificuldade é encará-lo de frente, não escrever em um blog.)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Uma Sociedade de Tijolos e Cristal.

(Texto publicado no meu antigo blog a mais de um ano. Resolvi repostar porque sou um preguiçoso.)

Se você alguma vez já viu algum episódio de Star Trek, você pode se lembrar dos vulcanos. Se não viu, explico. Os vulcanos são uma espécie humanóide que vive no planeta de mesmo nome e cuja filosofia é a de negação de emoções, em outras palavras, a elevação da razão.

Pode parecer familiar, e é. Na verdade, a quantidade de escolas filosóficas usando do mesmo princípio é enorme, podemos citar o estoicismo, o cristianismo e o budismo só a título de exemplo. Ignorar emoções como o ódio, a inveja, e pregar o perdão pode parecer excelente, uma forma de manter a sociedade una e harmônica. Seria, se não fosse pura utopia.

O que ocorre é que nós somos um pouco pretensiosos ao achar que somos racionais, e que somos a espécie mais inteligente, mas nos esquecemos que todas nossas ações (sim, todas) são governadas por instintos. Por exemplo, se eu estou com fome, vou comer, pois é meu instinto comer. Se estou apaixonado, é porque tem um instinto de propagação da espécie que me faz procurar uma parceira e cuidar dela e de minha prole futuramente.

Quando um instinto é negado, através de outro instinto – que teimamos em chamar de razão – negamos a própria natureza. Hoje sabemos muito bem o que a natureza faz, quando você a ignora ou a trata mal: como um grande deus malévolo, ela se volta contra nós. E isso é muito perceptível para você que é fã de Star Trek: quando um vulcano perde o controle de suas emoções, o que eventualmente acontece, parece potencializá-la, liberando toda a emoção contida e negada.

A sociedade dos vulcanos então é edificada em uma grande base de cristal: qualquer evento que venha a liberar emoções de alguém, certamente liberará, também, um caos massivo que a destruirá. A antiga ideia de perdoar e amar seus inimigos nada mais é do que uma bomba-relógio, que eventualmente explodirá. Descontar no inimigo na primeira vez que este lhe aborrece, parece ser bem mais proveitoso do que descontar futuramente, quando ele lhe aborrecer tanto que lhe faz pensar “para mim chega, não o aguento mais!”

Essa é a influência emocional que age de fora para dentro. É a pressão externa que age a todo momento, em todas as pessoas, influenciando seu comportamento, podendo ser negada, como mostra a filosofia tradicional, ou pode ser aproveitada, senão, vejamos.

Para demonstrar um evento bem comum – quando alguém sofre uma decepção amorosa. Dependendo do quão forte for essa decepção, com certeza na próxima você vai estar mais preparado para enfrentar de forma mais madura, sabendo agir no momento certo.

Há ainda de se considerar o outro lado da moeda, quando a vítima das emoções é você mesmo. Esse é o tipo de influência emocional que age de dentro para fora. É a influência que você dá ao mundo através de suas emoções. De um lado, temos uma filosofia de perdão, de contenção da tristeza, por exemplo, já que é assegurada que todos os eventos no mundo tem um propósito, seja esse evento bom ou ruim, mas cuja razão é boa para todos. Por outro lado, qualquer evento que venha necessitar de um maior preparo emocional, vai destruir aquele que sempre se escondia na sombra de uma ideologia acalentadora.

Imagine assim: você e um amigo fazem uma aposta, em um ano cada um tentará levantar um peso de 100kg. Seu amigo, achando-se forte e dominado pela ideia que só ele ganhará a aposta, não treina, ao contrário de você, que está lá na academia sofrendo de dores a todo instante. Não precisa de tanta reflexão para saber quem ganhará a aposta. Você, ao contrário de seu amigo, não se apoiou em uma ideia, mas em uma ação, e isso fez toda a diferença.

Assim também é em relação às emoções. Se a cada tristeza você supor que é para o seu bem, depois de certo tempo você perceberá que não se tornou tão forte quanto se tivesse tomado a decisão de agir.

Uma sociedade que se baseia na justiça, no sentido mais puro da palavra, através de positivação dos sentimentos de aceitação dos instintos, parece também ser caótica. Como combinar o melhor dos dois para se chegar a uma harmonia social? Cada cidadão tem seu modo próprio de lidar com as emoções, extravazá-las não implica necessariamente uma violência.

Deve-se buscar a melhor maneira, ou a mais sensata de fazer isso. Claro que se você quiser realmente resolver as coisas, irá buscar a forma que mais lhe convenha, nem que seja a mais primitiva delas – sabendo das implicações jurídicas delas, é claro. Mas extravase, isso é o mais importante. A harmonia é um efeito do caos, um produto dele, altamente imprevisível, mas edificada em uma estrutura sólida, como de tijolos.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Angústia

Em uma vida curta e incerta, parece cruel fazer qualquer coisa que privar as pessoas do consolo da fé, quando a ciência não pode remediar suas angustias. Aqueles que não conseguem suportar o peso da ciência tem liberdade para ignorar seus preceitos. Mas não podemos fazer ciência aos pedacinhos, aplicando-a quando nos sentimos seguros e ignorando-a quando nos sentimos ameaçados - Mais uma vez, porque não temos sabedoria para tanto. A não ser dividindo a mente em compartimentos herméticos separados, como é possível voar em aeroplanos, escutar rádio ou tomar antibióticos, sustentando ao mesmo tempo que a Terra tem cerca de 10 mil anos ou que todos os sagitarianos são gregários e afáveis?"

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Enrico Fermi e o Grande General.

(...)Meu exemplo favorito é a história que se conta sobre o físico italiano Enrico Fermi, recém-chegado às praias norte-americanas, membro do Projeto Manhattan de armas nucleares, e tendo de se defrontar com chefes-de-esquadra norte-americanos no meio da Segunda Guerra Mundial.
— Fulano de tal é um grande general — disseram-lhe.
— Qual é a definição de um grande general? — perguntou Fermi na sua maneira característica.
— Acho que é um general que ganhou muitas batalhas consecutivas.
— Quantas?
Depois de alguma hesitação, decidiram-se por cinco.
— Quantos dos generais norte-americanos são grandes generais?
Depois de mais alguma hesitação, decidiram-se por uma pequena porcentagem.
— Mas imaginem — replicou Fermi — que não exista isso que vocês chamam de grande general, que todos os exércitos tenham forças iguais, e que vencer uma batalha seja uma simples questão de sorte. Nesse caso, a probabilidade de vencer uma batalha é de uma em duas, ou 1/2; duas batalhas, 1/4; três, 1/8; quatro, 1/16; e cinco batalhas consecutivas, 1/32 — o que é mais ou menos 3%. Vocês esperam que uma pequena porcentagem dos generais norte-americanos ganhe cinco batalhas consecutivas — por uma simples questão de sorte. Agora, algum deles já ganhou dez batalhas consecutivas… ?