terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A Teoria das Provas e o Método Científico.


Um dos primeiros textos que eu publiquei aqui tratava do método científico. Porém, tem certa gente impertinente que ainda olha feio para o instituto só porque tem "método" no nome, não são pessoas céticas, assim como esta que vos fala, mas denegatórias, que negam algo sem ao menos utilizar do senso crítico e do aprofundamento epistêmico. Então elaborei um texto cujo fim é intercalar o método com o Direito, tendo em vista tratar-se este último de uma ciência (jurídica).

É inegável a aplicabilidade do método científico ao Direito, na medida em que este não possui coerência sem aquele. O Direito é uma ciência pois lida com o descobrimento de fatos através da investigação de evidências que corraboram com uma tese (em geral do autor) ou com uma antítese (em geral do réu), provando uma e negando outra em maior ou menor medida, de forma que resulte em uma síntese mais próxima possível da verdade. É claramente um modelo da dialética hegeliana, tendo como centro a análise de evidências (provas) de modo a provar alegações. Deste modo, podemos deferir que a análise jurídica é, assim como na científica, uma análise de provas. Nenhum fato deve ser considerado verdadeiro sem as suas devidas provas.

Agora você é o juiz ou a juíza e está prestes a dar sua sentença. A acusação afirma que Tício roubou Mévio, deixando lesões corporais graves. Quanto ao roubo, há diversas provas, como a apreensão da carteira de Mévio, em poder de Tício, além de uma faca utilizada para a coação. Mas o exame de corpo de delito feito em Mévio não indicou qualquer lesão corporal. Provavelmente, você juiz ou juíza, condenaria Tício na pena correspondente ao crime de roubo, sem a qualificação da lesão corporal.

Se você é atento, perceberá bem que há apenas um fato provado. O roubo em si foi provado, através de evidências irrefutáveis a prima facie, mas em relação à alegação de lesões houve uma inércia. Não houve uma prova em contrário, houve apenas a falta de prova, então como pode ser considerado falso? Essa é mais uma característica do método científico transferido ao Direito. Em geral, a alegação deve ser considerada falsa até sua prova em contrário. Disto derivou o princípio de presunção de inocência, segundo o qual "o acusado é considerado inocente até prova em contrário". O método funciona desse jeito não somente para preservar o direito do acusado, mas principalmente para evitar arbitrariedades que poderiam maculá-lo, como ocorria em tempos remotos. É só lembrar os tempos de inquisição, ou mais recentemente a ditadura, quando a presunção de inocência não tinha vez, fazendo com que a quantidade de inocentes presos, torturados ou até mortos atingisse as alturas. Esse desvio do método gera arbitrariedades inclusive fora do Direito, e nós podemos verificar na mitologia: não há prova alguma de que o martelo de Thor gera raios, mas era considerada verdadeira.

E lembre que nem sempre uma aparente prova é uma prova real: os vikings acreditavam que o eclipse ocorria porque o deus-lobo engolia a lua, e costumavam gritar e fazer barulho para que o deus a soltasse, o que efetivamente acontecia. Para eles, tratava-se de uma prova da veracidade de suas crenças. Então como saber se uma prova é confiável ou não? Pelo método da medida. Perceba: se algo pode ser medido, significa que ele existe. Ou seja, se há um exame de balística no corpo de delito que, por reiteradas análises e medidas, constatou que a bala alojada no crânio da vítima partiu da arma do acusado, é porque a bala saiu daquela arma. Isto passa a ser verdadeiro, e se surge dúvida acerca do método utilizado nas análises e medidas, é isto que deve ser impugnado, através de contra-prova. De qualquer forma, os comportamentos dos peritos (em seus métodos), assim como suas alegações, podem ser questionados e impugnados por meio de contra-provas, mas as evidências em si, não. Isto é, não poderei questionar se realmente havia uma bala dentro do crânio da vítima, se esse foi um preceito a partir do qual se chegou àquela conclusão. Do mesmo modo funciona a ciência, se há uma constatação científica de que café faz mal à saúde, nada poderá ser questionado senão o método utilizado pelos cientistas para chegar nesta conclusão (quantas pessoas analisadas, qual o fundamento científico, qual o desvio de erro da pesquisa, qual o método de seleção das cobaias, etc...).

Aqui quero abrir um parêntese para explicar que o método epistemológico utilizado no Direito é perspectivista. E o é porque o Juiz jamais saberá de fato o que ocorreu (a verdade absoluta), pois jamais conhecerá todos os detalhes envolvidos, sem contar com aqueles que se perderam por atuação do devir. A reconstrução dos fatos nunca atingirá o próprio fato em sua integridade, mas construirá um modelo, uma maquete de representação da verdade na cabeça do juiz. Mas isto não diferencia o direito das demais ciências, já que, por mais direto que seja a relação entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível, este último jamais será conhecido em sua integridade, pelos mesmos motivos já explanados.

Então, esquematicamente, o método científico adaptado ao Direito funciona da seguinte maneira: autor alega um fato (hipótese), prova em caso de fatos constitutivos de direito (construção da tese). Réu se defende (hipótese), produzindo contra-provas em caso de fatos impeditivos, modificativos ou extintivos do direito do autor (construção da antítese). Análise de fatos e provas pelo juiz: sentença (síntese). A síntese poderá ser, neste caso, uma reafirmação do alegado pelo autor, uma negação do alegado pelo autor, ou um intermediário entre ambos.

Disto, não é possível questionar o funcionamento do método em sua base, pois ele visa acabar com arbitrariedades com as quais ciência nenhuma funcionaria. Por isso é que para qualquer alegação que você tenha, a veracidade será constatada através de provas, além de sua fundamentação lógica, de forma reiterada e minuciosa. Só assim é que o conhecimento pode ser construído.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

7 fatores que fazem as pessoas acreditarem em coisas estranhas


Por Ana Carolina Prado

Em Como as pessoas funcinam.


Em uma pequena cidade de Illinois (EUA), um bandido misterioso – e bizarro – estampava as capas dos jornais lá por volta de 1944. Tudo começou com uma mulher que declarou que um homem entrou em seu quarto no meio da noite e anestesiou suas pernas com um spray a gás paralisante. Logo apareceram os jornais com manchetes como “BANDIDO DO ANESTÉSICO À SOLTA”. E, nos 13 dias seguintes, cerca de 25 casos semelhantes foram relatados e amplamente explorados pela imprensa. A polícia da cidade ficou de prontidão. E os maridos com suas armas carregadas. Duas semanas depois, ninguém havia sido preso. E nenhum vestígio químico havia sido descoberto. Assim, tanto a polícia quanto a mídia começaram a se referir ao evento como um caso de “histeria de massa”.

Ondas de avistamentos de ETs, chupacabras, fantasmas ou bandidos bizarros cuja existência nunca foi comprovada aparecem de tempos em tempos em diversos lugares. Às vezes, vira moda ver sinais milagrosos – ou mensagens malignas escondidas em músicas, rótulos, filmes. Mas o que leva uma pessoa a acreditar em coisas como essas? É disso que fala o livro “Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?”, do psicólogo e historiador da ciência americano Michael Shermer. O critério usado por ele para definir o que são coisas “estranhas” é a falta de evidências científicas para comprovar sua existência.

Com base no livro, listamos alguns fatores que influenciam nesse tipo de crença – e podem fazer, inclusive, com que pessoas extremamente inteligentes sejam pegas. Afinal, garante ele, ninguém está completamente imune à histeria coletiva. Dê uma lida e depois diga pra gente se você concorda ou não.

1. Elas querem acreditar

Segundo Michael Shermer, a principal razão pela qual as pessoas acreditam em coisas estranhas é simpes: elas querem acreditar. Mas por que? Porque dá bem-estar, é reconfortante e consola. Para Shermer, se alguém perguntar qual é a sua posição sobre a vida após a morte, é provável que você diga que é favorável. E explica: “O fato de eu ser favorável à vida após a morte não significa que vou consegui-la [ou que ele acredito nela]. Mas quem não a quereria? É esse o ponto. É uma reação muito humana acreditar nas coisas que nos fazem sentir melhor”.

2. A gratificação imediata

Muitas crenças estranhas promovem um bem-estar instantâneo. Shermer cita no livro o exemplo dos médiuns que atendem pelo telefone – a um custo de 3,95 dólares por minuto. Eles usam as chamadas técnicas de leitura a frio: vão tentando adivinhar as coisas partindo de informações mais gerais (envolvendo coisas banais que são verdadeiras para quase todo mundo, como “pressões financeiras vêm lhe causando problemas” – afinal, até Eike Batista terá um dia difícil se perder grana no mercado financeiro). A partir das pistas que as pessoas vão dando, os supostos médiuns conseguem deduzir as informações mais específicas que irão impressionar. Se o médium diz algo que não corresponde à realidade da pessoa naquele momento, a saída é simples: ele diz que a coisa vai acontecer no futuro. E a pessoa acredita. Afinal, a grande sacada é que eles não precisam estar certos o tempo todo. “Quem telefona costuma esquecer os erros e lembrar mais dos acertos e, o mais importante, as pessoasdesejam que o médium acerte. Os céticos não gastam 3,95 dólares por minuto nisso, mas os crentes sim”, explica o autor.

3. Simplicidade

Para termos uma gratificação imediata, é preciso que as crenças tenham explicações simples para as coisas complexas do mundo. “Coisas boas e ruins acontecem tanto para as pessoas boas quanto para as ruins, aparentemente de modo aleatório. As explicações científicas costumam ser complicadas e requerem treino e esforço para ser entendidas. A superstição e a crença no destino e no sobrenatural oferecem um caminho mais simples”, diz Shermer. Para ilustrar isso, ele conta uma experiência de Harry Edwards, chefe da Australian Skeptics Society (Sociedade dos Céticos Australianos).

Edwards publicou uma carta num jornal local falando sobre uma galinha de estimação que ele costumava carregar empoleirada nos seu ombro. Às vezes, porém, ela não se segurava e acabava deixando um “cartão de visitas” na sua camisa. Mas o que poderia ser algo desagradável acabava dando origem a acontecimentos muito positivos. Edwards listou alguns desses episódios e os correlacionou com certos eventos que ocorriam em seguida e chegou à conclusão de que o cocô da galinha lhe trazia boa sorte. Sempre que ela carimbava sua roupa, ele encontrava uma carteira com dinheiro, ganhava na loteria, recebia alguma notícia boa. Então ele levou a ave para várias consultas espirituais e descobriu que ela havia sido um filantropo numa vida passada e que tinha reencarnado para fazer o bem às pessoas – por meio de suas fezes. Assim, Edwards terminou sua carta ao jornal oferecendo-se para vender saquinhos com o “cocô da sorte” de sua galinha. Era tudo um teste, mas ele recebeu dois pedidos e 20 dólares pela “mercadoria”. Sim, houve pessoas que compraram a história. Porque ela era simples – mais fácil que as leis da probabilidade, por exemplo.

4. Nível de incertezas e perigos do local

O local onde a pessoa está influencia suas crenças. Estudos mostraram que quanto mais incertezas o ambiente oferece, maior é a superstição. O antropólogo Bronislaw Malinowski constatou, por exemplo, que os habitantes das ilhas Trobriand, no litoral da Nova Guiné, recorriam mais a rituais supersticiosos à medida que se afastavam no mar para pescar. Nas águas calmas das lagoas a que estavam acostumados, os rituais desapareciam. Ele concluiu, então, que a magia aparece em situações em que estão em jogo a incerteza, o acaso e um jogo emocional intenso entre a esperança e o medo. “Não encontramos isso quando a atividade é certa, confiável e está sob o controle de métodos racionais e processos tecnológicos”, conta Malinowski.

5. Abertura a novas experiências

Estudos envolvendo experiências místicas concluíram que as pessoas com maior predisposição ao misticismo (ou seja, à crença em coisas estranhas) tendem a ter uma personalidade com altos níveis de complexidade, abertura a novas experiências, variedade de interesses, inovação, tolerância à ambiguidade e criatividade. Elas também podem ter maior propensão a serem absorvidas em fantasias, capacidade de suspender o processo de julgamento que permite separar eventos reais e imaginação e uma boa disposição de investir seus recursos mentais para representar o objeto imaginário do modo mais vívido possível.

6. O fato de pessoas inteligentes em um campo da ciência não serem necessariamente inteligentes em outro

Michael Shermer chama atenção para o fato de que muitos pesquisadores brilhantes em certas áreas podem cometer erros e deixar passar fatos importantes, por ignorância, ao fazerem incursões em outras áreas. “Os recém-chegados de outros campos, que em geral se enfiam com os dois pés sem o treino e a experiência exigidos, passam a gerar novas ideias que consideram – por causa do sucesso que obtiveram em seu próprio campo – revolucionárias”. O problema é que, na maioria dos casos, aquelas ideias já foram avaliadas anos ou até décadas antes – e foram rejeitadas por razões legítimas.

7. “Pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas porque têm capacidade para defender crenças às quais chegaram por razões não inteligentes”

Segundo Shermer, a maioria das pessoas constitui suas crenças por uma variedade de razões que não têm muita evidência empírica nem raciocínio lógico. Elas fazem suas escolhas segundo variáveis como a constituição genética, social, influência de familiares e amigos, experiências pessoais etc. “Selecionamos dentre a massa de dados aquilo que confirme mais as coisas em que já acreditamos e ignoramos ou racionalizamos o que não vem confirma-las. Todos fazemos isso, mas as pessoas inteligentes fazem melhor, seja por talento ou por estarem treinadas”, explica. Assim, elas também podem defender melhor suas crenças para si mesmas.


“Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?”
Michael Shermer, Editora JSN

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Pequeno Príncipe e o Direito.

Capítulo XIV

O quinto planeta era muito curioso. Era o menor de todos. Mal dava para um lampião e o acendedor de lampiões... O príncipezinho não podia atinar para que pudessem servir, no céu, num planeta sem casa e sem gente, um lampião e o acendedor de lampiões. No entanto, disse consigo mesmo :

- Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, é menos absurdo que o rei, que o vaidoso, que o homem de negócios, que o beberrão. Seu trabalho ao menos tem um sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais uma estrela, mais uma flor. Quando o apaga, porém, é estrela ou flor que adormecem. É uma ocupação bonita. E é útil, porque é bonita.

Quando abordou o planeta, saudou respeitosamente o acendedor :

- Bom dia. Por que acabas de apagar teu lampião ?

- É o regulamento, respondeu o acendedor. Bom dia.

- Que é o regulamento ?

- É apagar meu lampião. Boa noite.

- Mas por que acabas de acendê-lo de novo ?

- É o regulamento, respondeu o acendedor.

- Eu não compreendo, disse o príncipezinho.

- Não é para compreender, disse o acendedor. Regulamento é regulamento. Bom dia.

E apagou o lampião.

Em seguida enxugou a fronte num lenço de quadrinhos vermelhos.

- Eu executo uma tarefa terrível. Antigamente era razoável. Apagava de manhã e acendia à noite. Tinha o resto do dia para descansar e o resto da noite para dormir...

- E depois disso, mudou o regulamento ?

- O regulamento não mudou, disse o acendedor. Aí é que está o drama! O planeta de ano em ano gira mais depressa, e o regulamento não muda !

- E então ? Disse o príncipezinho.

- Agora, que ele dá uma volta por minuto, não tenho mais um segundo de repouso. Acendo e apago uma vez por minuto !

- Ah! Que engraçado ! Os dias aqui duram um minuto !

- Não é nada engraçado, disse o acendedor. Já faz um mês que estamos conversando.

- Um mês ?

- Sim. Trinta minutos. Trinta dias. Boa noite.

E acendeu o lampião.

O príncipezinho considerou-o, e amou aquele acendedor tão fiel ao regulamento. Lembrou-se dos pores de sol que ele mesmo produzia, recuando um pouco a cadeira. Quis ajudar o amigo.

- Sabes ? Eu sei de um modo de descansar quando quiseres...

- Eu sempre quero, disse o acendedor.

Pois a gente pode ser, ao mesmo tempo, fiel e preguiçoso.

E o príncipezinho prosseguiu :

- Teu planeta é tão pequeno, que podes, com três passos, dar-lhe a volta. Basta andares lentamente, bem lentamente, de modo a ficares sempre ao sol. Quando quiseres descansar, caminharás... E o dia durará o quanto queiras.

- Isso não adianta muito, disse o acendedor. O que eu gosto mais na vida é de dormir.

- Então não há remédio, disse o príncipezinho.

- Não há remédio, disse o acendedor. Bom dia.

E apagou seu lampião.

Esse aí, disse para si o príncipezinho, ao prosseguir a viagem para mais longe, esse aí seria desprezado por todos os outros, o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios. No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.

Suspirou de pesar e disse ainda :

- Era o único que eu podia ter feito meu amigo. Mas seu planeta é mesmo pequeno demais. Não há lugar para dois...

O que o príncipezinho não ousava confessar é que os mil quatrocentos e quarenta pores de sol em vinte e quatro horas davam-lhe certa saudade do abençoado planeta !

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Glow

You know, when your life is a shadow,
And then suddenly it lights that tiny little spot,
A beautiful, perfect and shiny little spot,
That glows everything,
And the shadow turns into colors and the life itself begins to make sense.
The previous tiny spot turns into a glow that seems to be bigger than that room you call life.
She's now a star, a starry sky, in a starry night.
That, my dear friend, is what she means to me.
The beauty of life, the reason of living.
She's the life itself.

sábado, 12 de novembro de 2011

Microtextos #2

1. A vida humana se resume na tentativa constante de ser melhor que o outro, e na afirmação, ainda que falaciosa, de que esta condição é verdadeira.

2. A razão humana é produto da própria natureza externa a ela. A natureza molda a razão humana para apreciar o empirismo, na medida em que a inteligência é aprimorada através dos processos evolutivos. Conclui-se que a razão é produto da realidade, não o oposto.

3. O propósito é uma qualidade dos seres viventes, portanto o propósito da “vida” inexiste, já que assim a estaríamos personificando. O ser humano pode definir seu propósito, porém é influenciado desde pequeno por seu meio, cabe a ele, como ser “livre” que é, libertar-se o máximo possível dos grilhões desse meio e conquistar seu propósito verdadeiro.

4. É inútil querer seguir apenas o que é prático. O que é hoje, não tarda a deixar de ser. Precisa-se pensar a vida, para adequar-se ao devir.

5. Não estamos preparados para a razão. Nossa emoção cega a lógica: o que pensamos ser lógico é afetado pelos nossos sentidos, por isso eles não podem ser negados. É necessário seguirmos nossas emoções.

6. Nada é realmente novo ou inventado, tudo é uma (re)descoberta.

7. Esses charlatães são criminosos piores que os homicidas: não só aniquilam a vida, mas as ideias.

8. O Humanitas* se vê sob a túnica do Estado, cosido pelos elementos que o compõem, numa tentativa inútil de dominar a Besta.

9. Nós consumimos ou nós que somos consumidos? O capitalismo nos consome porque é disso que ele precisa para se nutrir: pessoas que o fortaleçam, pessoas que perdem suas vidas em seu nome, pessoas que não são mais pessoas, mas produtos de consumo em si mesmas, marcas personificadas que nascem para serem livres, mas que morrem sem conhecer a liberdade. Pessoas por conveniência, de existência simbólica, engrenagens da máquina capitalista, polidas desde a infância, doutrinadas, enganadas, modeladas para servir ao grande Deus dinheiro.

10. Justiça é o remédio imediato da injustiça, esta sendo um elemento próprio da nossa sociedade. Para vencer a injustiça, portanto, não se deve remediá-la, mas mudar a essência da natureza social, através de métodos que condicionem os comportamentos para que hajam conforme a justiça.

11. Se estes capitalistas pudessem comprar mais horas do que um dia tem, comprariam apenas para trabalhar mais e conseguir mais dinheiro. O dinheiro gera dependência: quanto mais se tem, mais se quer. Como conseguir viver com tal agonia?

12. Não se crê em pessoas, mas em evidências. Também é preciso avaliar evidências de um modo imparcial, sem apenas aceitar aquelas que colaborem com sua ideia, mas todas existentes. Seja seu maior inimigo na avaliação de evidências, a imparcialidade não é natural ao ser humano, deve ser forçado.

13. É um equívoco admitir que tudo é relativo, o mais correto seria inferir que em tudo há um grau de relativismo. Diz-se grau pois o universo admite certas constâncias e previsibilidades.

14. Estamos condenados a desistir de nossa consciência em prol de uma vida estável e “bem-vivida”. Ora, se nascemos condenados a sermos livres, isso não deveria implicar a impossibilidade de nos tornarmos escravos? Somos aqueles que, apesar de nossa situação, defendemos a liberdade como um princípio do Ser: talvez hipocrisia? Talvez ignorância? Conveniência ou superstição? A consciência, para ser livre, necessita primordialmente cumprir seu papel: conhecer-se, descobrir-se na condição em que se encontra. Ainda que impossível seja a plena liberdade, a escravidão é apenas uma escolha.

15. Muitos costumam negar a existência do acaso, “nada é por acaso”, costumam afirmar. A vontade de ter sua vida sob controle é uma constante nos seres humanos, e por bem, já que assim evitaríamos o desconhecido, ou simplesmente confiaríamos mais no porvir. Acontece que o acaso é tão mais belo que um futuro fechado, tão quadrado...

16. Nós somos nossos corpos, seus desejos são nossos desejos. Toda a irracionalidade e instinto, é o que somos. Por este motivo somos livres, pois as limitações impostas pelos nossos corpos são também nossas limitações. Nem sequer podemos negar um instinto, mas ponderá-lo de acordo com as situações, admitindo que somos animais com um pouco de racionalidade...

17. Não há sequer um aspecto da vida que seja péssimo. Se por acaso houver uma definição que não dê margens a otimismos, isso é porque você interpreta como um pessimista, baseado em seus princípios pessoas. Neste caso, não é a realidade que seja péssima, foi você quem errou ao escolher os seus princípios. (no caso schopenhaueriano, por exemplo, não há pessimismo, mas uma perspectiva sobre uma mesma realidade que é interpretada como péssima.)

18. Há uma mania de dicotomia que me incomoda. Grandes problemas do homem se resolverão quando percebermos que corpo e mente são um só. Só há o corpo, suas limitações são nossas limitações, por isso somos livres, desde que convivamos com esse princípio. Pelo mesmo motivo a felicidade pode ser alcançada por um hedonismo epicurista.

19. Se algo é banido apenas por ser contra os “bons costumes”, somente por este motivo deveria ser reivindicada sua permissão: o problema não é o fato proibido, mas os próprios costumes que são pervertidos por ideias tolas.

*Conceito que estou elaborando despretensiosamente, utilizando a terminologia machadiana, depois falarei algo, é basicamente um conceito metafísico equivalente a um conjunto social que se comporta de maneira mais ou menos uniforme.

sábado, 5 de novembro de 2011

Liberdade

1.Somos seres livres?

A uns seis meses atrás eu responderia que não, que era impossível compreender a mente humana como algo livre, e diria que somos escravos de nosso próprio corpo. Isso pode ser constatado em um documentário que vi a algum tempo chamado "Science of Lust", que mostra homens comprando óculos escuros. São dadas para eles duas opções: comprar uns óculos comuns, cuja popularidade é alta, ou uns extravagantes, cuja popularidade é baixa. Se a venda de óculos é feita na frente de uma loja qualquer, o homem prefere os óculos normais, mas quando a barraquinha de vendas se move para a frente de um sex shop, os homens magicamente passam a preferir os óculos mais extravagantes. Ora, nada mais natural, ao ver o sex shop, o nível de testosterona no sangue sobe, e o homem passa a preferir algo que o destaque e o faça parecer o macho ideal para o acasalamento. Isso não se limita ao homem, muito menos à testosterona, hormônios ou outros fatores quaisquer podem modificar o comportamento humano e o induzir a decidir numa disparidade enorme em relação ao comportamento normal.

A liberdade, pensava eu, não existiria justamente porque nós sempre decidimos baseados nas necessidades do nosso corpo, e estamos demasiadamente limitados nesse sentido. O que me fez mudar de opinião foi a ideia do monismo. Monismo é a corrente teórica da filosofia da mente que afirma não existir a alma, sendo o corpo e a mente uma coisa só, difere do dualismo, tendo esta por princípio a divisão entre mente e corpo. Se eu encarasse de uma maneira dualista, como ocorre no cristianismo, jamais poderia afirmar que o livre-arbítrio é uma realidade, pois a liberdade de nossa alma é limitada severamente por nosso corpo. - no cristianismo também há uma ideia fortíssima de destino, já que Deus sabe de todo o futuro, e portanto este resta limitado. - Mas resolvi abrir os olhos. Nós somos nossos próprios corpos, e isso nos faz seres livres, pois já não podemos falar em escravidão, não existe uma limitação de liberdade de um ente (corpo) sobre outro (alma).

Basicamente, uma relação de não-liberdade justamente necessita de uma dualidade, o que nos faz lembrar que, neste sentido, podemos não ser tão livres assim. A imposição de ideologias é o clássico exemplo de limitação de liberdade, pois demanda um sujeito que estabeleceu a ideologia como verdadeira, e aqueles seus seguidores que a incorporaram como se sua fosse. Livre, nesta perspectiva, é aquele que deixa de ouvir a análise fenomenológica feita pelos outros e passa a ver o mundo diretamente, a ser um sujeito cognoscente propriamente dito. Tudo me faz lembrar muito bem da máxima "não confie nas pessoas, confie nas evidências", e isso se faz necessário para resguardar nossa bendita liberdade. Sim, eu levo em consideração que há influências intersubjetivas a todo o momento e que somos produtos dessas relações, mas isso é o normal esperado, não se trata de uma escravidão de uns pelos outros, mas um acidente, como tantos outros, de nossa própria natureza. Diferentemente ocorre na imposição de ideologias, já que há um propósito, ainda que implícito, de dominação e egoísmo quase psicótico.

Sim, nascemos seres livres, e somos seres livres desde que aprendamos a dizer não às ideias sem fundamento, que foram a nós parcialmente introjetadas.

Fuja de tudo que limite sua liberdade, olhe para o mundo, conheça-o.

2. Outra parte vital para entender esse problema do livre-arbítrio e sua saída é a questão da mimesis. Mimesis é a capacidade de aprendizagem observacional que todo ser humano possui como instinto. É algo fatalista, pois, fora daqueles pré-conhecimentos estabelecidos em nossos genes, tudo que somos provém de aprendisagem observacional, ou seja, da mimesis. Quando percebemos certa pessoa realizar determinada ação, avaliamos seus resultados. O instinto se encarrega de elencar aquele comportamento como digno de ser repetido se dele provêm bons resultados. Mas o que é bom depende de pessoa para pessoa, e nisso as coisas começam a se complicar, pois o julgamento de cada pessoa também provém de aprendizagem mimética.

Nessa perspectiva, a sociedade é uma rede retroalimentativa de mimesis que se torna caótica pelos elementos exteriores novos que a natureza dispõe. Mas aí encontramos outro problema, pois ao enfrentarmos situações novas, não nos desprovemos completamente da mimesis, mas adaptamos nossas experiências semelhantes para obter um resultado também satisfatório. A complexidade da sociedade surge exatamente dos elementos novos que introduzimos acidentalmente, procurando obter o mesmo resultado já uma vez alcançado. Não se trata aqui de uma análise filosófica sobre a inexistência do livre-arbítrio, mas uma constatação científica.

Essa última frase foi colocada para, a contra-senso, afirmar a existência da liberdade de decisões.

A primeira coisa a se lembrar do texto anterior é que não somos entidades flutuantes presas a um corpo. Se pensados assim, nós caímos no fatalismo de negação da liberdade. Somos nossos corpos, e tudo que o limita já deve ser tomado como ponto inicial para se definir o que é liberdade. Se encararmos a mimesis como um instinto, é o nosso instinto, e portanto deve ser ignorado na nossa definição de liberdade, visto que não existiria algo mais livre para afirmarmos que nossa liberdade é menor que ela. Nessa rede mimética da sociedade, nós ainda temos poder de escolha, e, ainda que pareça ser mínima, comparada a um ideal de liberdade total de um ser também ideal, é certa pois é o máximo possível em nossa existência. Somos livres por sermos o mais livres possível.

3. Certo, acostumados agora à ideia que a liberdade não se resta suprimida, é importante passar à sua definicão, já que me parece que a liberdade, da forma aue venho tratando, já assumiu um aspecto bem diferente do que estávamos acostumados. Não se trata de uma definição certa e outra errada. O problema que quero eliminar é que a definição de liberdade como previamente conhecida era de uma liberdade inexistente, que fatalmente acabaria por consumir-se, como um Eresictão da fome insaciável.

A liberdade, pois, tem de ser definida com os nossos corpos como ponto inicial. Mas também tem relação com o poder de escolha. Não podemos, por exemplo, decidir contra o nosso corpo, pois vai ser ele mesmo quem vai decidir em primeiro lugar. Digamos que eu esteja com fome e decida não comer. A decisão foi feita por nós, pelo nosso corpo, e se a vontade de não comer parte dele, não contrariamos nossos instintos!

Liberdade é, pois, o poder de escolha que nós, pelos nossos próprios corpos, possuímos, que é máxima, ainda que aparente conter limitações.

Eis o mistério da Vontade.

domingo, 16 de outubro de 2011

Paixão - Microtextos #1

1. A etimologia, a metafísica.


A etimologia da palavra paixão recai sobre o verbo sofrer. Não porque amar por si só seja uma causa de sofrimento, mas que a pessoa apaixonada possa vencer quaisquer adversidades. A pessoa não é a causa do sofrimento, mas o sofrimento é um meio pelo qual se chegará à pessoa. Se alguém não está verdadeiramente preparado para suportar dores a fim de ter consigo a pessoa amada, não está verdadeiramente apaixonado. Eis o mistério da Vontade!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Amor


O homem nasceu para amar. Este aspecto, apesar de reducionista, não deixa de ser verdade. Mas, de certa perspectiva, todos os atos realizados pelo homem têm um intento de propagação da espécie. O amor aí deixa de ser a finalidade e passa a ser o meio, ou um dos meios, que levarão à bem-sucedida propagação dos genes. Desta forma (note que é uma perspectiva), nós estudamos para conseguirmos um bom trabalho, imaginando que bons trabalhos são os que propiciam uma melhor remuneração (além, claro do bem-estar), para podermos ter mais fundos para financiar a construção de uma família.

Tal construção é o fim, para o qual somos levados sob uma força invisível a qual Schopenhauer denominou Vontade para a vida, ou simplesmente Vontade. Posteriormente Freud usaria o inconsciente para justificar as mesmas situações – Freud era assíduo leitor de Schopenhauer. Ora, não temos consciência das nossas finalidades no mundo, mas algo nos impulsiona fortemente para algum lugar. Schopenhauer cai na metafísica para explicar diversas situações, mas tais explicações podem ainda ser aproveitadas.

Voltemos um pouco no tempo e nos deparamos com a definição kantiana de que a coisa-em-si é impossível de ser por nós verificada tal como ela é na natureza. Adicionemos a sábia constatação schopenhaueriana que nós mesmos somos coisa-em-si, e chegamos a conclusão de que é impossível para nós conhecermos uns aos outros e, infelizmente, a nós mesmos.

Isso não somente é constatado pelas análises metafísicas de Kant, que definia que nossa percepção acabaria por interferir sempre na apreciação do objeto, mas pela própria complexidade do ser humano, aliada a sua constante mutabilidade, que sugeririam que sempre que o sujeito cognoscente terminasse o exame de todas as características possíveis de uma outra pessoa, ela já haveria se transformado em uma completamente diferente. A indeterminância, nesse caso, gera angústia.

Desta forma, parece extremamente plausível que quando alguém ama outro, não há um mútuo conhecimento. Na verdade, não é a outra pessoa que é amada, mas uma representação dela, construída pela aprendizagem, bastante distorcida e frágil na mente do sujeito amante. Todos os atos provocados pela outra parte, até que aleatórios e não condizentes com sua personalidade, são analisados e internalizados como se formassem a figura do sujeito amado.

Assim como não é possível conhecer a pessoa-em-si, não é possível amá-la. Isto gera um problema tão grande que faz parte do próprio funcionamento da Vontade. E este problema é o final de um relacionamento. O relacionamento é importantíssimo para a Vontade porque é ele quem, precipuamente, dá continuidade aos nossos genes através da criação da prole. Pode parecer óbvio, mas não é aproveitável um relacionamento duradouro, haja vista a falta de diversidade genética que resultará. Muito mais aproveitável são vários relacionamentos durante a vida.

Assim, a Vontade usa a impossibilidade de se conhecer a pessoa-em-si para proveito próprio. Se o sujeito amado vir a agir em discordância com a sua representação existente na nossa mente, ocorre o que é comumente chamado de “decepção”. Atitudes não esperadas são capazes de gerar decepções, ainda que sejam da própria natureza das pessoas, mas não de suas representações, que tendem a ser simplistas. O caso é extremado quando pensamos ser justamente o oposto, e que a pessoa, de uma hora para outra, passou a se comportar fora de seus padrões.

O ponto alto é que há formas de contornar esta situação. Uma delas é saber desta condição. Sabendo que nunca se conhece realmente alguém, e principalmente sabendo que haverá decepções cedo ou tarde, há uma preparação psicológica do porvir, que implica um amortecimento das emoções futuras. De Schopenhauer podemos aprender que para realmente amar alguém, é preciso estar preparado para deixá-lo.

Esta é a sabedoria de um homem mal compreendido como pessimista. Schopenhauer nos dá uma saída para uma das maiores problemáticas da vida, que, apesar de ser feita de decepções, de quedas, pode ser bastante aproveitável se nos aventurarmos a entendê-la.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Charlatanismo Quântico

Por Victor J. Stenger

A Física Quântica é reivindicada para apoiar a noção mística que a mente cria a realidade. Porém, uma realidade objetiva, sem qualquer papel especial para a conciência, humana ou cósmica, é consistente com todas as observações.

Certas interpretações da mecânica quântica, a teoria revolucionária devolvida no inicio do século XX para explicar o comportamento anômalo da luz e dos átomos, estão sendo deturpadas de forma a implicar que apenas os pensamentos são reais e que o universo físico é o produto de uma mente cósmica à qual a mente humana está ligada através do espaço e do tempo. Essa interpretação tem fornecido uma base aparentemente científica para várias alegações de mente sobre a matéria, da PES à medicina alternativa. O “misticismo quântico” forma também parte do sustentáculo intelectual da asserção pós-moderna de que a ciência não pode dizer nada sobre uma realidade objetiva.

A palavra “quantum” aparece frequentemente na literatura da Nova Era e na mística moderna. Por exemplo, o físico Deepak Chopra (1989) tem promovido com sucesso a noção que ele chama de cura quântica, que sugere que nós podemos curar todos os nossos males pela aplicação de energia mental suficiente.

De acordo com Chopra, esta conclusão profunda que pode ser extraída da física quântica, que ele diz ter demonstrado que “o mundo físico, incluindo nossos corpos, é uma resposta ao observador. Nós criamos nossos corpos como criamos a experiência do nosso mundo”. (Chopra 1993, 5). Chopra também afirma que “crenças, pensamentos e emoções criam as reações químicas que sustentam a vida em cada célula” e “o mundo em que você vive, incluindo a experiência do seu corpo, é completamente ditado por como você aprendeu a percebê-lo” (Chopra 1993, 6). Assim, doença e envelhecimento são uma ilusão, e podemos atingir o que Chopra chama de “corpo sem idade, mente sem tempo” pela livre força da consciência. [1]

Amit Goswami, no Universo Auto Consciente: Como a Consciência Cria o Mundo Material, argumenta que a existência de fenômenos paranormais é apoiada pela mecânica quântica.

[...] fenômenos físicos, tais como a clarividência e as experiências fora do corpo, são exemplos da operação não localizada da consciência… a mecânica quântica dá sustentáculo a tal teoria fornecendo um apoio crucial para o caso da não-localidade da consciência. (Goswami 1993, 136)

Uma vez que nenhum indício convincente e reprodutível para os fenômenos paranormais foi descoberto, apesar de 150 anos de esforço, essa é de fato uma base tênue para a consciência quântica. [2]

Embora seja dito que o misticismo existe nos escritos de muitos dos físicos proeminentes do principio do século XX (Wilber 1984), a moda atual da física mística começa na verdade com a publicação, em 1975, do Tao da Física de Fritjof Capra (Capra 1975). Nele, Capra afirma que a teoria quântica confirmou os ensinamentos tradicionais dos místicos orientais: de que a consciência humana e o universo formam um todo interconectado e irredutível. Um exemplo:

Para o homem esclarecido [...] cuja consciência abarca o universo, para ele o universo se torna seu “corpo”, enquanto o corpo físico se torna uma manifestação da Mente Universal, sua visão interior uma expressão da realidade mais elevada, e sua fala uma expressão da verdade eterna e do poder mântrico. Lama Anagarika, Govinda Foundations of Tibetan Mysticism (Capra 1975, 305) [3]

O livro de Capra foi uma inspiração para a Nova Era e “quantum” se tornou o jargão usado para embelezar a espiritualidade modernosa pseudocientífica que caracteriza o movimento. [4]

Dualidade Onda-Partícula

A mecânica quântica é vista, mesmo por muitos físicos, como sendo cheia de mistérios e paradoxos. Os místicos os buscam para apoiar suas visões. A fonte da maioria dessas alegações pode ser traçada à assim chamada dualidade onda-partícula da física quântica: objetos físicos, em nível quântico, parecem possuir propriedades tanto locais, reducionistas, de partícula, quanto propriedades não-locais, holísticas, de onda, que se tornam manifestas dependendo da medida da posição ou do comprimento de onda do objeto for medida.

Os dois tipos de propriedade, onda e partícula, parecem ser incompatíveis. A medida de uma quantidade geralmente afetará o valor que a outra quantidade vai ter em uma medição futura, portanto, o valor a ser obtido na medição futura é indeterminado, ou seja, é imprevisível, embora a distribuição estatística de um conjunto de medições semelhantes seja previsível. Dessa forma, a mecânica quântica obtém sua qualidade indeterminística, geralmente expressa em termos do princípio da incerteza de Heisemberg. Em geral, o formalismo matemático da mecânica quântica pode prever apenas distribuições estatísticas. [5]

Apesar da dualidade onda-partícula, a imagem da partícula é mantida na maioria das aplicações da mecânica quântica. Átomos, núcleos, elétrons e quarks são todos considerados como partículas em algum nível. Ao mesmo tempo, as “ondas” clássicas como luz e som são substituídas por fótons e fônons, respectivamente, localizados, quando os efeitos quânticos devem ser considerados.

Na mecânica quântica convencional, as propriedades de onda das partículas são representadas formalmente por uma quantidade matemática chamada função de onda, usada para computar a probabilidade de que a partícula será encontrada em uma posição particular. Quando se faz uma medição, e sua posição é então conhecida com grande precisão, diz-se que a função de onda “colapsa”, como ilustrado na Figura 1.

Figura 1. A função de onda colapsa na mecânica quântica convencional. Um elétron é localizado passando através de uma abertura. A probabilidade de que ele será, então, encontrado em uma certa posição é determinada pela função de onda ilustrada à direita da abertura. Quando o elétron é, então, detectado em A, a função de onda instantaneamente colapsa de modo que seja zero em B.

Einstein nunca gostou da noção de que a função de onda colapsa, chamando-a de “ação sobrenatural a distancia”. Na Figura 1, um sinal pareceria se propagar com velocidade infinita de A para B para dizer à função de onda para colapsar a zero em B uma vez que a partícula tenha sido detectada em A. De fato, o sinal precisa se propagar a velocidade infinita através do universo uma vez que, antes da detecção, o elétron poderia em princípio ter sido detectado em qualquer lugar.

Isso certamente viola a afirmação de Einstein de que nenhuma mensagem pode se mover mais rapidamente que a velocidade da luz.

Embora eles geralmente não sejam tão explícitos, os místicos quânticos parecem interpretar a função de onda como algum tipo de vibração de um éter holístico que preenche o universo, tão “real” quanto a vibração do ar que chamamos de onda sonora. O colapso da função de onda, no ponto de vista deles, acontece instantaneamente através do universo por um ato de vontade da consciência cósmica.

Em seu livro O Universo Consciente, Menos Kafatos e Robert Nadeau identificam a função de onda com “O Próprio Ser”:

Pode-se então concluir que o Ser, em seu análogo físico pelo menos, foi “revelado” na função de onda… Toda sensação que temos de uma unidade profunda com o cosmos… poderia ser entendida como correlata com a ação da função de onda determinística…. (Kafatos and Nadeau 1990, 124)

Assim, seguem Capra ao imaginar que a mecânica quântica une a mente com o universo. Mas o nosso senso interno de “profunda unidade com o cosmos” é dificilmente um indício científico.

A interpretação convencional da mecânica quântica, promulgada por Bohr e ainda mantida pela maioria dos físicos, não diz nada sobre consciência. Ela se preocupa apenas com o que pode ser medido e que predições podem ser feitas sobre como as distribuições estatísticas de conjuntos de medições futuras. Como notado, a função de onda é simplesmente um objeto matemático usado para calcular probabilidades. Construções matemáticas podem ser tão mágicas quanto qualquer outro fragmento da imaginação humana — como a nave estelar Enterprise ou o desenho do Papa-léguas. Em lugar algum a mecânica quântica implica que a matéria real ou mensagens viajem a velocidades mais rápidas do que a da luz. Na verdade, foi provado ser impossível a propagação de mensagem superluminal em qualquer teoria consistente com a relatividade convencional e com a mecânica quântica (Eberhard e Ross, 1989).

Interpretações Românticas

Nem todos ficaram satisfeitos com a interpretação convencional da mecânica quântica, que não oferece explicação alguma para o colapso da função de onda. O desejo de consenso sobre uma interpretação ontológica da mecânica quântica levou a centenas de propostas através dos anos, nenhuma ganhando nem mesmo uma maioria simples de apoio entre os físicos ou filósofos.

Impulsionados pela insistência de Einstein de que a mecânica quântica é uma teoria incompleta, que “Deus não joga dados”, tem-se buscado teorias subquânticas envolvendo “variáveis ocultas” que deem lugar a forças que jazem abaixo dos níveis atuais de observação (Bohm e Hiley, 1993). Embora tais teorias sejam possíveis, não se encontrou ainda nenhum indício para forças subquânticas. Além disso, foram feitos experimentos que tornam quase certo que nenhuma dessas teorias, se determinística, deverá envolver conexões superluminais. [6]

Mesmo assim, os místicos quânticos saudaram a possibilidade de haver variáveis ocultas, holísticas, não-locais com o mesmo entusiasmo que mostraram para a função de onda consciente. Da mesma forma, abraçaram um terceiro ponto de vista: a interpretação de muitas palavras de Hugh Everett (Everett, 1957).

Everett mostrou, de forma útil, como era possível eliminar formalmente o colapso da função de onda em uma teoria quântica das medidas. Everett propôs que todos os caminhos possíveis continuam a existir em universos paralelos que se dividem cada vez que é feita uma medição. Isso deixou aberta a porta para os místicos quânticos alegarem que a mente humana age como um tipo de “seletor de canais” para o caminho que é seguido por um universo individual enquanto existe em todos os universos (Squires, 1990). Desnecessário dizer, a ideia de universos paralelos tem atraído seu próprio círculo de proponentes entusiastas, em todos os universos, provavelmente.

Não-Localidade Efetiva

O mundo quântico é admitidamente diferente do mundo da experiência cotidiana que obedece às regras da mecânica clássica Newtoniana. Algo além do senso comum normal e a física clássica é necessário para descrever os processos fundamentais dentro dos átomos e núcleos. Em particular, deve ser dada uma explicação para a não-localidade aparente, o “salto quântico” instantâneo, que tipifica a natureza incomum dos fenômenos quânticos.

Apesar da alegação muito ouvida de que as partículas quânticas não seguem caminhos bem definidos no espaço-tempo, os físicos de partículas elementares têm utilizado exatamente esse quadro por cinquenta anos. Como isso é conciliado com o salto quântico que parece caracterizar as transições atômicas e fenômenos similares? Podemos ver, agora, no diagrama do espaço-tempo mostrado na Figura 2.

Figura 2. Não-localidade efetiva. Como um “salto quântico” aparentemente instantâneo pode ser feito entre dois pontos no espaço. Um par elétron-pósitron é criado em C por uma flutuação quântica do vácuo. O pósitron aniquila um elétron em A, desfazendo a flutuação original do vácuo de modo que há mudança zero de energia. O elétron, portanto, parece ter feito um salto quântico instantâneo de A para B. A distancia AB é comparável ao comprimento de onda associado com a partícula, assim um comportamento de onda “holístico” acontece.

À esquerda, um elétron (e-) está se movendo ao longo de um caminho bem definido. Um ar elétron-pósitron é produzido no ponto C por uma flutuação quântica do vácuo, permitida pelo princípio da incerteza. O pósitron aniquila o elétron original no ponto A enquanto o elétron do par continua além do ponto B. Uma vez que todos os elétrons são indistinguíveis, parece como se o elétron original tivesse saltado instantaneamente de A para B.

Na Figura 2, todas as partículas envolvidas seguem caminhos definidos. Nenhuma se move mais rapidamente que a velocidade da luz. Ainda assim, o que se observa é operacionalmente equivalente a um elétron se movendo a uma velocidade superluminal, desaparecendo em A e aparecendo simultaneamente em um ponto distante B. Nenhum experimento pode ser executado no qual o elétron à esquerda possa ser distinguido daquele à direita. Um cálculo simples mostra que a distancia AB é da ordem do comprimento de onda (de Broglie) da partícula. Desse modo, a natureza de onda “holística” das partículas pode ser entendida de um modo que não requer movimento superluminal e certamente nenhuma intervenção da consciência humana.

Além disso, uma vez que o salto quântico é aleatório, nenhum sinal de outro efeito causal é transmitido superluminalmente. Por outro lado, uma teoria determinística baseada em forças subquânticas ou variáveis ocultas é necessariamente superluminal.

Assim, a mecânica quântica, como praticada convencionalmente, descreve os saltos quânticos sem um salto quântico drasticamente além do bom senso. Certamente nenhuma alegação mística é justificada por quaisquer observações relacionadas aos processos quânticos.

Conclusão

A mecânica quântica, a peça central da física moderna, é mal-interpretada como se implicasse que a mente humana controla a realidade e que o universo é um todo conectado que não pode ser entendido pela mera redução às partes.

Entretanto, nenhum argumento ou indício decisivo requer que a mecânica quântica tenha uma papel central na consciência humana ou que forneça conexões holísticas instantâneas através do universo. A física moderna, incluindo a mecânica quântica, permanece completamente materialista e reducionista na medida em que é consistente com todas as observações científicas.

O comportamento aparentemente holístico e não-local dos fenômenos quânticos, como exemplificado por uma partícula parecendo estar em dois lugares ao mesmo tempo, pode ser entendido sem se descartar o bom senso da noção das partículas seguindo caminhos definidos no espaço e no tempo ou exigindo que sinais viagem mais rapidamente que a luz.

Nenhum movimento ou sinalização superluminal foi alguma vez observado, em concordância com o limite definido pela teoria da relatividade. Ademais, as interpretações dos efeitos quânticos não precisam demolir a física clássica ou o bom senso para tornarem-se inoperantes em todas as escalas — especialmente na escala macroscópica na qual os humanos funcionam. A física Newtoniana, que descreve com sucesso virtualmente todos os fenômenos macroscópicos, segue suavemente o limite de muitas partículas da mecânica quântica. E o bom senso continua a se aplicar na escala humana.

Sobre o Autor

Victor J. Stenger é professor de física e astronomia na Universidade do Havaí e autor de Not By Design: The Origin of the Universe (Prometheus Books, 1988) e Physics and Psychics: The Search for a World Beyond the Senses (Prometheus Books, 1990). Este artigo foi baseado em seu ultimo livro, The Unconscious Quantum: Metaphysics in Modern Physics and Cosmology (Prometheus Books, 1995).

Notas

[1] Para um exame da medicina alternativa, incluindo “medicina quântica”, veja Douglas Stalker and Clark Glymour, eds., Examining Holistic Medicine (Amherst, N.Y.: Prometheus Books, 1985).

[2] Para uma discussão mais ampla e referências, veja Victor J. Stenger, Physics and Psychics: The Search for a World Beyond the Senses (Amherst, N.Y.: Prometheus Books, 1990).

[3] L. A. Govinda, Foundations of Tibetan Mysticism (New York: Samuel Weiser, 1974), p. 225, como citado em Capra 1975, p. 305.

[4] Veja, por exemplo, Marilyn Ferguson, The Aquarian Conspiracy: Personal and Social Transformation in the 1980s (Los Angeles: Tarcher, 1980).

[5] É claro, em alguns casos essas distribuições podem ser altamente marcadas e assim um resultado pode ser previsto com alta probabilidade, ou seja, com certeza para todos os fins práticos. Na verdade, isso é precisamente o que acontece no caso de sistemas de muitas partículas, tais como os objetos macroscópicos. Esses sistemas então tornam-se descritíveis pela mecânica clássica determinística como o limite de muitas partículas da mecânica quântica.

[6] Para uma discussão mais ampla e referências, ver Victor J. Stenger, The Unconscious Quantum: Metaphysics in Modern Physics and Cosmology (Amherst, N.Y. : Prometheus Books, 1995).

Referências

Bohm D., and B. J. Hiley. 1993. The Undivided Universe: An Ontological Interpretation of Quantum Mechanics. London: Routledge.

Capra, Fritjof. 1975. The Tao of Physics. Boulder, Colorado: Shambhala.

Chopra, Deepak. 1989. Quantum Healing: Exploring the Frontiers of Mind/Body Medicine. New York: Bantam.

___. 1993. Ageless Body, Timeless Mind: The Quantum Alternative to Growing Old. New York: Random House.

Eberhard, Phillippe H., and Ronald R. Ross. 1989. Quantum field theory cannot provide faster-than-light communication. Found. Phys. Lett. 2: 127-149.

Everett III, Hugh. 1957. "Relative state" formulation of quantum mechanics. Rev. Mod. Phys. 29: 454-462.

Goswami, Amit. 1993. The Self-Aware Universe: How Consciousness Creates the Material World. New York: G. P. Putnam’s Sons.

Kafatos, Menas, and Robert Nadeau. 1990. The Conscious Universe: Part and Whole in Modern Physical Theory. New York: Springer-Verlag.

Squires, Euan. 1990. Conscious Mind in the Physical World. New York: Adam Hilger.

Wilber, Ken, ed. 1984. Quantum Questions: Mystical Writings of the World’s Great Physicists. Boulder, Colorado: Shambhala.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A Neurologia das Experiências de Quase Morte


Artigo de Alex Likerman, publicado em Happiness in this World
Traduzido por colaboração de Rodrigo Véras e André Rabelo

Eu nunca tive um paciente que confessasse ter tido uma experiência de quase morte (EQM), mas recentemente me deparei com um livro fascinante chamado O Portal Espiritual no Cérebro (The Spiritual Doorway in the Brain) de Kevin Nelson, que relata que cerca de 18 milhões de americanos podem ter tido uma. Se for verdade, é provável não apenas que alguns dos meus pacientes estejam entre eles, mas também alguns dos meus amigos. O que me levou a pensar: o que exatamente a ciência tem a nos dizer sobre a sua causa?

Que EQMs acontecem não está em disputa. A sequência e os tipos de eventos dos quais elas são compostas são suficientemente similares entre as pessoas que as relatam de tal forma que EQMs poderiam ser consideradas como algum tipo de síndrome, semelhante a uma doença sem causa conhecida. Mas apenas porque milhões de pessoas já viveram EQMs, isso não significa que a explicação mais comumente aceita para elas – que almas deixam os corpos e encontram deus ou alguma outra evidência de vida após a morte – esteja correta.

Afinal de contas, as pessoas interpretam erroneamente as suas experiências o tempo todo (uma ilusão ótica representando o exemplo mais básico). Sem dúvida, muitas pessoas que relatam EQMs são profundamente afetadas por elas, mas, geralmente, mais como um resultado de suas interpretações das experiências (i.e., “a vida após a morte é real”) do que como resultado da experiência em si. Acontece que um número de observações reproduzíveis combinado com uma pitada de conjecturas gerou uma explicação neurológica inteiramente plausível para todos os casos de experiências que incluam EQM.

Em seu livro, Nelson comenta que normalmente 20% do fluxo sanguíneo é direcionado para o cérebro, mas que este fluxo pode abaixar para 6% antes de ficarmos inconscientes (e mesmo nesse nível, nenhum dano permanente será causado). Nelson ainda observa que quando nossa pressão sanguínea diminui demais e desmaiamos, o nervo vago (um longo nervo que se conecta com o coração) desloca a consciência para o sono REM – mas não totalmente em algumas pessoas. Um número de sujeitos parece ser suscetível ao que ele chama de “intromissão REM”.

A intromissão REM ocorre tipicamente, quando ocorre, na transição da vigília para o sono. Nelson descobriu em sua pesquisa que o funcionamento do mecanismo que alterna as pessoas entre o sono REM e a vigília tendeu a ser diferente naquelas que relataram EQMs. Nessas pessoas, ele descobriu que a mudança era mais propensa a “fragmentar e misturar” esses dois estados de consciência (o controle do nosso estado de consciência é localizado no nosso tronco cerebral e é precisamente regulado), fazendo com que essas pessoas exibam simultaneamente características de ambos. Durante a intromissão REM, as pessoas se viram paralisadas (“paralisia do sono”), totalmente despertas, mas experimentando luzes, sensações fora do corpo e narrativas surpreendentemente vívidas. Durante o sono REM, muitos dos centros de prazer do cérebro são estimulados também (animais que tiveram suas regiões REM danificadas perderam todo o interesse em comida e até em morfina), o que pode explicar os sentimentos de paz e unicidade também relatados durante EQMs.



A neurofisiologia também pode explicar o sentimento de estar se movendo através de um túnel, tão regularmente mencionado em EQMs. É bem sabido que pessoas experimentam uma “visão de túnel” imediatamente antes de desmaiar. Experimentos com pilotos girados em centrífugas gigantes têm reproduzido o fenômeno de visão de túnel, aumentando as forças G e diminuindo o fluxo sanguineo em suas retinas (a periferia da retina é mais suscetível a quedas na pressão sanguínea do que o seu centro, de tal forma que o campo de visão parece comprimido, fazendo cenas parecerem vistas dentro de um túnel). Quando óculos especiais que geram sucção foram colocados nos olhos dos pilotos para neutralizar o efeito de queda da pressão sanguínea da centrífuga, os pilotos perderam a consciência sem desenvolver o efeito da visão de túnel – provando que a experiência da visão de túnel é causada por uma redução no fluxo sanguineo dos olhos.

Talvez o aspecto mais intrigante das EQMs seja o quão costumeiramente elas estão associadas com experiências fora do corpo. Isso também, entretanto, trata-se de uma ilusão. Evidências de que experiências fora do corpo nada têm a ver com almas deixando corpos podem ser encontradas na observação de que elas também têm sido relatadas por pessoas acordando do sono, recuperando-se de anestesia, enquanto estão desmaiando, durante convulsões, durante enxaquecas e quando estão em altas altitudes (não há razão para pensar que as almas das pessoas estão deixando seus corpos durante nenhuma dessas situações não ameaçadoras para a vida).

Mas as evidências mais fascinantes de que experiências fora do corpo são fenômenos neurológicos vêm dos estudos feitos inicialmente na década de 1950 por um neurocirurgião chamado Penfield. Ele estava interessado em compreender como poderia distinguir tecidos cerebrais normais de tumores cerebrais ou “cicatrizes” que eram responsáveis por causar convulsões. Ele estimulou os cérebros de centenas de pacientes conscientes no esforço de mapear o córtex cerebral e entender aonde em nossos cérebros nosso corpo físico é representado.

Um paciente sofria de danos no lobo temporal e quando Penfield estimulou a região temporoparietal do seu cérebro, ele relatou ter deixado o seu corpo. Quando a estimulação parou, ele “voltou”, e quando Penfield estimulou a região temporoparietal de novo, ele deixou o seu corpo mais uma vez. Penfield também descobriu quando variava a corrente e a localização do estímulo, podia fazer os membros do seu paciente parecerem encurtados ou produzir uma cópia de seu corpo que existia ao seu lado!

Em o Cérebro Contador de Histórias (The Tell-tale Brain), V. S. Ramachandran descreve um paciente que teve um tumor removido da sua região frontoparietal direita e desenvolveu um “gêmeo fantasma” ligado ao lado esquerdo do seu corpo. Quando Ramachandran colocou água fria no seu ouvido (um procedimento conhecido como teste calórico de água fria, o qual estimula o sistema de equilíbrio do cérebro, conhecido por ter conexões com a região frontoparietal), o gêmeo do paciente se afogou, movimentou-se e mudou de posições.

Neurologistas têm reconhecido desde então que a região temporoparietal do cérebro é responsável por manter a representação de nossos esquemas corporais. Quando uma corrente externa é aplicada nessa região, ela para de funcionar normalmente e nossa representação do corpo “flutua”. Outras evidências de que esse fenômeno é uma ilusão vêm de experimentos nos quais as pessoas que tiveram experiências fora do corpo enquanto passavam do sono para a vigília eram incapazes de identificar objetos colocados no quarto depois que adormeciam, sugerindo fortemente que a imagem que viram deles mesmos dormindo nas suas camas era reconstruída em sua memória. Embora não exista ainda nenhuma evidência de que níveis baixos de oxigênio no sangue causem disfunção da região temperoparietal da mesma forma que uma corrente aplicada, esta permanece como uma hipótese testável e a explicação mais provável.

Em suma, embora longe de estar provada como uma explicação para o que realmente explica as EQMs, a hipótese da intromissão REM tem mais evidências para corroborá-la do que a idéia de que nós realmente deixamos nossos corpos quando a morte está à espreita.

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Mais informações sobre experiências de quase morte:

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Do Calmaria & Tempestade.