sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Ciclo



"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!’.”

- Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência.

Trata-se de um pensamento dos mais fortes de Nietzsche, a ideia de que tudo poderia acontecer novamente, cada ato da nossa vida, faria adotarmos uma vida melhor vivida, mais feliz. Chamava-o de Eterno Retorno. A ideia permitiria a atitude crítica de viver a vida como se ela fosse se repetir infinitamente, um preceito ético genial.

Há quem diga que ele realmente acreditava que isso pudesse acontecer, não sendo somente uma metáfora. Há quem faça uma leitura mais crítica, indicam que o Eterno Retorno não tinha uma conotação temporal, mas uma crítica à ordem das coisas. O mundo não seria uma convivência de pólos diametralmente opostos, mas de estruturas complementares de uma mesma realidade. Portanto, o Eterno Retorno seria justamente a sucessão de instâncias que acharíamos opostas, porém sendo complementares, como o bem e o mal, a felicidade e a tristeza, etc.

Como o número de probabilidades de combinações é finita, em algum momento as sucessões começariam a se repetir, a “retornar” ao ponto inicial indefinidamente.

Mas, não comecei a escrever isso para falar especificamente sobre o eterno retorno. Escrevi para relatar meu pensamento sobre a confusão do senso comum sobre o quê realmente é cíclico.

Limitar nossa classificação ao que é apenas diretamente observável é um erro. Acreditar que, por exemplo, o sol vai raiar amanhã simplesmente porque desde que o observamos ele vem raiando por períodos de tempo iguais (24h), simplesmente não convence. Não é porque algo se sucede no tempo desde que observamos que irá suceder da mesma forma no futuro.

E isto se dá simplesmente porque devemos conhecer as causas desses ciclos. Os ciclos, quando existem, possuem uma lógica simples, baseada em leis que garantem sua sucessão. Assim, o sol não raia hoje porque raiou preteritamente, mas porque a terra gira em torno de seu próprio eixo, transladando o sol, movimentos explicados de forma concisa pelas teorias atuais.

Trata-se, pois, de uma observação mais objetiva das causas dos ciclos, não dos ciclos propriamente, que se daria de maneira severamente subjetiva.

Ocorre que a ideia de “ciclos” é transplantada imprudentemente dessas observações objetivas a conceitos subjetivos, ou até mesmo à história. Se vemos algo na história se repetir, dizemos imediatamente que o evento se repetirá novamente no futuro. Então inventamos mitos.

Simplesmente porque vemos o ciclo do dia, do ano, da vida, da lua, etc. tendemos a aplicar ciclos econômicos, sociais. Nossa vida é baseada em ciclos, porque nossa mente está habituada a eles. Não é à toa que ritualizamos diversos aspectos de nossa vida, instituindo datas comemorativas e organizando-a em repetições indefinidas.

O pior de tudo é crer em conceitos que, segundo se diz, repetem-se. Por exemplo, admitindo que houveram sucessivas mudanças econômicas, passando pelo feudalismo e desemborcando no capitalismo, nada mais natural que ver tal sistema encontrando um fim e sendo substituído por um outro que também terá seu fim eventualmente, certo?

Não. Simplesmente porque estamos vendo o ciclo pelo ciclo. Quando procuramos quais as causas de tais sucessões, podemos vislumbrar talvez revoluções, mudanças sociais impactantes, que talvez nunca se repitam. Porém, se sustentarmos que essas são as causas, percebemos que também seriam cíclicas e demandariam causas outras. Estaríamos procurando leis naturais em fatos humanos.

Percebemos então a falta de lógica de tal pensamento. O que me fez me questionar sobre tal conceito é uma crítica amadora à tripartição compteana do pensamento humano: mitologia, metafísica, positivismo. Ainda que hajam severas críticas bem fundamentadas, a crítica amadora da qual falo é que, eventualmente, descobriríamos um quarto estágio, superando o positivismo.

Não se tratava de qualquer crítica ao positivismo (que mudou bastante desde sua conceituação), fundamentando o seu total abandono. Mas tratava-se de uma crítica absurda, segundo meu ponto de vista: só porque da mitologia se sucedeu a metafísica, sendo sucedida pelo positivismo, haveria algum outro estágio que o sucedesse.

Não há nenhuma causa que se baseie em lei-fundamento de uma teoria que, por sua vez, explique uma sucessão cíclica. Não há nada que permita dizer que o positivismo (como o entendemos em sua essência) será superado.

O conceito de ciclo deve ser aplicado apenas àquilo que permita o que aqui foi demonstrado. Nem mesmo a construção de nossa vida cíclica permite que afirmamos que, sem sombra de dúvida, sempre comemoraremos o carnaval, por exemplo, simplesmente porque todo ano o comemoramos. Simplesmente um dia poderemos dizer: chega de carnaval! (o que está demasiadamente longe de acontecer).

Talvez estejamos acostumados à ideia de ciclo e por isso mesmo queiramos aplicá-lo a tudo. Esteticamente é até mais bonito. Por isso retorno ao início do texto.

Concordo com a impressão nietzscheniana de que aquela divisão que fazemos entre o bem e o mal, p.ex. é pura ficção, sendo nosso cotidiano a mistura perfeita do que conceituamos como opostos. Mas se partirmos do entendimento de que tudo se repetirá porque o tempo é infinito e as combinações finitas, somente muito tempo para que voltem a se repetir. Durante nossa existência, difícil é aplicar o cíclico ao que não tem essa natureza.