O mundo não está preparado para uma igualdade. As diretrizes de uma igualdade material (tratar desigualmente os desiguais na medida de sua desigualdade) às vezes parecem insuficientes para atingir uma igualdade de fato. Claro que devem haver diretrizes, mas estas devem vir mais a fundo, não apenas no regimento pátrio, como um princípio dirigente, mas como um pensamento internalizado na mente de cada cidadão, uma diretriz moral.
Daí a necessidade de uma metafísica da igualdade. Ou seja, é necessário desenvolver uma teoria que, pelo menos em tese, facilite o entendimento de uma sociedade igualitária. E lembrem-se, sobretudo, que igualdade remete a uma ideia também de unicidade, o que explicarei mais adiante.
A dificuldade de uma aceitação do conceito de igualdade formal (todos são iguais perante a lei) é produto de um mal-entendido acerca de toda a filosofia individualista do início do século XX. A sociedade do século XXI, descendente desse mal-entendido, tornou-se demasiadamente individualista, desconsiderando seu caráter de “sociedade” em si mesma.
Somos seres sociais, e esta máxima nos guia para um entendimento de que o individualismo filosófico não deveria negar o sentimento social, mas se compatibilizar com ele. Ou seja, é a valorização do individualismo, sem a negativa do sentimento social. E se somos, de fato, seres sociais, devemos criar uma teoria que reforce esse caráter.
Sendo uma sociedade, podemos então inferir que somos um sistema. Esse ponto é essencial para a metafísica da igualdade. Se somos um sistema, implicações da teoria dos sistemas é aplicada a nós. Uma destas implicações é que somos um conjunto mais ou menos uniforme, com comportamentos padronizáveis, desde que vistos como um sistema, ou seja, de forma cosmológica (de cima).
A característica de uniformidade faz toda a diferença em um sistema. Pois, se somos uniformes, devemos ser cosmologicamente identificados como formalmente iguais. E esta ideia tem uma implicação da qual passo a discorrer.
Percebemos logo de início que atos individuais podem propagar-se para o resto do sistema. Esta dedução é um produto da igualdade, e de extrema importância para sua manutenção. Explico. Como um sistema está baseado na ideia de retroalimentação de atos, um ato praticado pelo elemento A em direção ao elemento B, mudará os futuros atos do elemento B, que passará a influenciar vários outros elementos, em cadeia, até voltar novamente a A.
Como deve ser difícil visualizar este evento de forma apenas lógica, ilustrarei um pouco. Imagine que Fulano está pensando em se suicidar, quando, em uma conversa informal no ônibus com Sicrano, percebe que a vida não é lá tão má quanto havia pensado precedentemente (Sicrano é muito mais problemático...). Um ato produzido por Sicrano, mudou um ato de Fulano (suicídio), que iria atingir seus familiares, colegas e amigos (como causar um sentimento de luto, por exemplo), que, inevitavelmente, atingiria um dia Sicrano novamente, em caráter de retroalimentação.
E isso não se dá apenas em eventos grandes como o suicídio. Simples atos como pegar um ônibus – que interferem na vida daqueles que estão dentro do ônibus, ou no próprio trânsito – ou em boas ações. E é esse ponto que quero chegar. O karma realmente existe. Claro que às vezes o feitiço pode virar contra o feiticeiro, mas, de forma geral, boas ações gerarão um efeito retrógrado de boas ações. Fazer o bem geralmente tem efeitos positivos na sua vida.
E é esse ponto que é importante, a igualdade gera um bem-estar social de forma direta. Mas não devemos ver esse conjunto teórico de forma egoísta, pois isso é um erro que contradita diretamente o princípio de igualdade. Esse princípio objetiva o bem-estar social, não o favorecimento individual. Ademais, não existe mais um favorecimento individual sem uma implicação em todo o resto da sociedade.
Atitudes de favorecimento ilícito, por exemplo, como a corrupção, ou a sonegação fiscal terão efeitos negativos na sociedade e um efeito-resposta ao criminoso. De imediato teremos uma resposta indireta, na forma de uma qualidade de sociedade menos desenvolvida que diminuirá a qualidade da vida desse criminoso. De forma direta, mas mediata, teremos a resposta de sanção social, na figura de uma pena.
Nesse mecanismo, o desenvolvimento acaba sendo um produto final. O sistema objetiva o desenvolvimento para se reafirmar como um sistema ainda mais forte. Sendo essa força traduzida por uma estabilidade ainda maior, ou seja, uma igualdade ainda maior, podemos deduzir que o bem-estar social produzido por aqueles atos geram preceitos de uma igualdade formal crescente.
Conclusão a que chegamos é que igualdade ideal (apenas uma diretriz), tem a capacidade de gerar atos que aumentem o bem-estar social, que, por sua vez, aproximam a sociedade de uma igualdade real. Retroalimentação pura. Então, o que você está fazendo aí parado? Contribua com a sociedade, meros atos têm a capacidade de mudá-la constantemente, em um efeito borboleta incessante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário