Aprendemos,
quando crianças, o que nos diferencia dos animais. São várias as respostas
dadas, inteligência superior, capacidade moral, autoconsciência, cultura, etc.
Muitas das quais estão sendo colocadas em cheque com o tempo. Mas uma diferença
é fundamental, talvez a causa de muitas vantagens e desvantagens: a imaginação.
E talvez seja
por isso que sejamos os únicos animais a formular crenças. Calma, não quero
dizer que as crenças são puramente imaginativas (oníricas, ou algo do tipo).
Podemos partir do princípio de que tudo são crenças, mas não quero discorrer
muito por este viés epistemológico.
É porque, quando
adquirimos a capacidade de imaginar, adquirimos, por conseguinte, a capacidade
de imaginar o mundo de uma forma que ele seja de uma maneira diferente daquela
que nos deparamos em princípio. Nasce a capacidade de questionar. “Talvez o
mundo seja diferente daquilo que vejo”.
Porém, como tudo
dentro do caos, a capacidade de questionar levou à necessidade de obter
respostas, que também necessitavam de imaginação. Imaginação por imaginação, o
caos estava instaurado. E sabemos perfeitamente que muito de complexo e
inimaginável pode surgir dessas conclusões.
Então faço uma
crítica genealógica. Voltemos ao passado no momento em que adquirimos a
capacidade de imaginar. Surgem as questões, nascem as necessidades de resposta.
Calma. Antes de
querer respondê-las, tente saber o que você pode perguntar e tente formular uma
base para aquilo que você vai responder.
Temos de ter a
noção de que somos pessoas cobertas de respostas para tudo, entregues a nós
desde que nascemos. Porém, não sabemos as perguntas. Como podemos ter as
respostas sem saber as perguntas? Isso torna tais respostas tão sem sentido!
Todo seu
conhecimento está baseado em respostas sem perguntas.
Isso me lembra
muito aquele livro/filme “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, em que dois seres
hiperinteligentes fazem um supercomputador (chamado "O Pensador Profundo")
para tentar descobrir a resposta para “a vida, o universo e tudo o mais”, a
resposta, dada pelo Pensador Profundo, depois de milhares e milhares de anos, é
“42” .
Inconformados com a resposta, os seres dizem ao tão complexo computador que não
era essa a resposta que procuravam. O computador retruca que eles próprios não
sabiam qual era pergunta, afirmando em seguida que a resposta em si (42), só
poderia ser entendida quando soubessem a pergunta.
Para obter a
pergunta, teriam que fazer um computador tão complexo, que necessitaria de
unidades vivas, atuando em conjunto para obtê-la. E esse computador era a terra
e as unidades seríamos nós.
O que se
depreende então é a lição do filme que nos é dada: talvez nossa função precípua
aqui não seja obter sempre as melhores e mais fundamentais respostas, mas saber
quais são as melhores e mais fundamentais perguntas.
Nasce, então, a
capacidade de filosofar.
