domingo, 28 de agosto de 2011

Bertrand Russell.

Outubro de 1948.

Quando o avião em que Bertrand Russell estava pousou em um fiorde em Oslo, houve um solavanco. Russell foi parar no chão, onde a água começava a subir, e achou que tinha sido apenas uma onda que tinha invadido o avião e exclamou "well, well" enquanto procurava seu chapéu. Abriram a porta e o puxaram para dentro d'água, só então ele começou a entender o que se passava e só pensava em proteger uma maleta, mas teve de deixá-la para nadar para o barco mais próximo. Metade dos passageiros morreu, houve mais sorte no compartimento traseiro para fumantes, onde o filósofo se encontrava.

Mais tarde um repórter lhe perguntou: "O que pensou quando pulou na água?"

Ele respondeu: "Que estava fria"

Repórter: "Não pensou em misticismo e lógica?"

B.R.: "Não."

sábado, 27 de agosto de 2011

A Filosofia Está Morta.


Esta é uma das frases ditas no último livro de um dos mais célebres físicos contemporâneos e talvez de toda a história, Stephen Hawking, que me causou um espanto. Não é pra menos, é de se esperar que esta fosse a intenção do autor: chocar, quebrar abruptamente um paradigma e enterrá-lo. Foi uma intenção parecida com a famosa frase de Nietzsche de que “Deus está morto”, e é possível que o autor também pretendesse parodiá-la. Os contextos são semelhantes, mas pretendo fazer aqui uma hermenêutica pessoal desta frase, dentro do possível, obviamente.

Primeiramente a frase não diz respeito à Filosofia em seu caráter ampliativo: isto, por si só, já seria uma incongruência lógica, visto que a primeira parte do livro (O Grande Projeto) é uma análise filosófica da ciência. Ademais, a própria frase por aqui discutida é de âmbito filosófico, não sendo cabível a sua interpretação ampliativa. Neste caso, “Filosofia” poderia ser muito bem substituída por “Metafísica”, e aqui adentramos no tópico que eu quero realmente discutir: A Metafísica está morta.

Metafísica, em uma definição simples é a disciplina filosófica cuja ocupação objetiva não está relacionada com o mundo fenomenológico, isto é, é um ramo da filosofia que trata de objetos que não podem ser conhecidos através do método empírico. Algumas das questões tratadas pela metafísica são, por exemplo: há um sentido último para a existência do mundo? A organização do mundo é necessariamente essa com que deparamos, ou seriam possíveis outros mundos? Existe um Deus? Se existe, como podemos conhecê-lo? Existe algo como um "espírito"? Há uma diferença fundamental entre mente e matéria? Os seres humanos são dotados de almas imortais? São dotados de livre arbítrio? Entre outras...

Se você se lembra bem, Auguste Comte instaurou a Lei dos Três Estágios, dividindo a história do pensamento humano em Mitológico, Metafísico e Positivo. O positivismo, etapa final do pensamento humano, é uma superação da metafísica, pois muda o foco da pesquisa racional do “Porquê” das coisas, para o “Como”. Não é mais um foco no “porquê” da chuva, mas no “como” a chuva ocorre, por exemplo. Estas novas perguntas são baseadas, respondidas e comprovadas pelo método empírico, uma medição dos elementos constituintes da realidade observada para caracterizar sua validade.

Ora, é intrínseca a ideia de existência para aquilo que é medido, deixa-se de perguntar se aquilo percebido é o existente, pois este último é aquilo que é direta ou indiretamente medido pelo observador. Não mais são necessários os modelos como “o mundo das ideias” de Platão, pois este modelo não pode ser medido, direta ou indiretamente, nem seus efeitos e nem ao menos as suas causas. Sim, pode parecer surreal (e o é literalmente) o mundo das ideias de Platão como sendo real, mas o filósofo realmente acreditava que havia um lugar com todas aquelas características que ele mesmo havia uma vez imaginado.

E não o culpe, a época na qual ele estava inserido era completamente distinta da nossa e não havia sequer o método científico elaborado como hoje o conhecemos. Ademais, naquela época, reinava o pensamento mitológico, sendo de extrema importância a contribuição de Platão sobre a realidade do mundo.

Mas, é importantíssimo frisar que não estou defendendo aqui o positivismo, ou a divisão histórica que Comte realizou. Minha intenção é primeiramente mostrar a ruptura de pensamento que ocorreu àquela época e que culminou na criação da ciência como a conhecemos atualmente. O próprio Comte defendia ideias que hoje não têm mais sentido: o determinismo da ciência (a mecânica quântica é fundamentalmente probabilística), a observação direta e imediata (os objetos percebidos no mundo são principalmente compostos de espaço vazio, esta é uma observação indireta e mediata), a ênfase do caráter racional em contraposição ao empírico (o buraco negro foi antes conceituado racionalmente para só então ser confirmado empiricamente), entre outros.

Atualmente, para se provar um fato, deve-se prová-lo empiricamente, sendo, até lá, considerado falso. O ônus da prova cabe essencialmente a quem alega a teoria, sua falseabilidade, contudo, pode ser imposta na primeira oportunidade para refutá-la. Por exemplo, se á uma teoria que “Há um corvo vermelho”, ela pode ser provada (testada) com a apresentação de um corvo vermelho. Por outro lado, a assertiva de que “Todos os corvos são pretos” pode ser falseada com a apresentação de um corvo vermelho. Para simplificar, segue o esquema abaixo:

Portanto, talvez fique mais claro agora que a Metafísica está morta pelo simples fato que suas alegações são de ordem fantástica, não testáveis nem falseáveis, fruto de uma racionalidade imaginativa. Porém, não sejamos generalistas, Schopenhauer definiu metafisicamente a Vontade, que em termos atuais se coadunaria ao conceito de Inconsciente, sendo, portanto, uma adaptação belíssima, mas que não retira o seu caráter imaginativo – porém genial. É importante verificar que a alegação de Schopenhauer é testável atualmente, através de MRI’s, por exemplo. – Mas, até sua verificação, deveria ser considerado falso.

Esta é a realidade da Teoria das Cordas atualmente, por exemplo, que explica diversos fenômenos da Mecânica Quântica e da Relatividade Geral, mas que não tem comprovação. É comum a Teoria das Cordas levar o nome de Metafísica pelos físicos mais conservadores, mas isso pode mudar já na próxima década (em uma perspectiva bem otimista).

O caráter crítico, e cético, principalmente, é o que caracteriza esse pensamento, o desconfiar de tudo, até que seja provado que é certo. Da próxima vez que alguém vier com conversas esotéricas, ocultistas, alquimistas, astrológicas, pseudociências, ou até com discursos científicos pouco embasados e controversos, desconfie, critique, tenha como falso até que a pessoa que está alegando prove diferente, este é o método científico.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Caos e Machado.


"– Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência de outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."

Decididamente, eis um dos trechos mais conhecidos de nossa literatura. O jogo do que aparenta ser contraditório é evidente, até porque a guerra no sentido cotidiano é talvez o pior dos eventos próprios da natureza humana. Mas proponho uma releitura, ou ainda, uma leitura mais detalhada para guiar-lhes em uma das mais belas teorias com as quais já me deparei.

Para tanto, vale lembrar da dialética hegeliana, segundo a qual a história é feita de diversos pontos contraditórios que começam com uma Tese, seguida de uma Antítese, com ideias opostas ou conflitantes, para desemborcar em uma Síntese, algo como um “justo meio” entre ambos, que reúna as melhores ideias e as mais sensatas. Esta Síntese, portanto, torna-se uma nova Tese, e o processo se renova.

Esse processo é muito próximo do conceito literal da guerra. Poderíamos de logo imaginar dois grupos de filósofos, ou escolas de arte, debatendo entre si, cada um refutando argumentos uns dos outros. O que surge é a Síntese: em algum momento nasce alguém para reunir o melhor de ambos e revolucionar.

“É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela bailarina”, já dizia Nietzsche. E ele tem razão: a guerra, ou o caos, parece mesmo em algum ponto, quase que sem explicação, dar à luz a harmonia, que por sua vez se desmancha em mais caos, e cria mais harmonia. O que parece paradoxal, tem um sentido verdadeiro.

Mas, porque o caos surge e porque ele gera a harmonia? Primeiramente é importante destacar as definições. Caos é uma propriedade matemática segundo a qual não se é possível definir deterministicamente seus eventos futuros. Isto acontece porque uma propriedade de um sistema caótico é a retroalimentação (retorno de informações do efeito para a causa de um fenômeno), e que, por este motivo, a predição sai do controle: até a mínima variável é capaz de modificar todo o sistema.

Retomando o ponto inicial podemos analisar a “guerra” como sendo uma interação entre pessoas, ideias, enfim, elementos quaisquer do sistema social. Esta guerra, diferentemente da guerra que destrói vidas, constrói. Constrói não somente vidas, mas ainda mais ideias que vão contribuir para um novo movimento do sistema social, dando-lhe essa dinâmica por nós conhecida.

A supressão de um elemento, neste contexto, ou de quantos forem os elementos envolvidos, dará luz a um novo, uma síntese que será aclamada por todos. Se esse embate não ocorresse, se por algum acaso as “guerras” fossem vencidas sem essa dialética, não só uniformizaria o sistema, deixando-lhe estático, como impediria o progresso social e filosófico.

A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Panotropia - Capítulo I

E aqui vemos nosso amigo John. Ele parece um pouco preocupado, e deveria estar mesmo, foi-lhe pedido um trabalho de quinze páginas, mas não estava nem na metade da primeira. Não culpe o pobre, ele geralmente pensa demais, e isso acaba o atrapalhando, pois neste momento ele não estava pensando nada além do que seria aquele determinado ponto específico do lado esquerdo da janela. Era um tanto grande, em torno de meio centímetro, e seria interessante se aproximar para obter mais informações, mas ele não podia, ele tinha um trabalho a fazer.

Não era um trabalho de escola, o nosso herói – se assim pudéssemos chamá-lo – é um adulto, talvez perto de seus trinta anos, e trabalhava como jornalista científico. Ele não era formado em jornalismo, muito menos em algum ramo das ciências, era talvez um curioso que pesquisava bastante, por isso fora chamado para participar daquela companhia, que acabara de inaugurar um setor específico para notícias científicas.

Porém, como você pode perceber, este é seu primeiro trabalho. Ele queria impressionar, fincar sua bandeira no terreno do jornalismo científico para garantir uma estabilidade financeira, tão sonhada pela raça humana. Ah egoísmo redentor da humanidade! Nada mais importa no mundo quando se tem a estabilidade financeira.

Era mais ou menos isso que John estava pensando no momento, não se sabe se estava sendo irônico, ou se realmente era verdade, não sou onisciente, apenas relato o evidente. Evidente é o que se está passando nesta adorável manhã no quarto de nosso amigo. Não escrevera muito desde que comecei a conversar com você, nem ao menos consultara quaisquer fontes. Estava apenas a olhar fixamente para aquele ponto, aquele diminuto ponto do lado esquerdo da janela.

O sol já se levantara um pouco mais no horizonte e agora você percebe melhor a fisionomia johniana: apesar de parecer abatido, pode ser considerado um rapaz elegante. Não sou muito de descrever minuciosamente as características físicas de quem quer que seja, posso até ser considerada uma péssima testemunha se eu tivesse que descrever alguém para um retrato falado. Mas isto não vem ao caso, pois você o está vendo claramente agora, iluminado inteiramente pela luz do sol.

Tenho de explicar também, infelizmente, este nome singular que o acompanha desde antes do nascimento. Os pais de John já haviam a muito decidido: seria John se fosse homem ou Cho se fosse mulher. Pode parecer estranho para alguém não acostumado a esta realidade extremamente globalizada, mas neste ano, bem diferente do seu, a realidade é também outra.

John tem somente meia hora para terminar o trabalho e não está confortável nesta situação em que se encontra. Mas vamos deixá-lo por um momento e fazer uma visita a Sofia.

Esta garota é quase da idade de John, talvez um ou dois anos mais nova, mais bela, mais rica. É só ver a situação do seu quarto para notar alguns traços de sua personalidade: impecável, nada fora do lugar, milimetricamente organizado e limpo. Você pode notar claramente a diferença entre nossas duas personagens, e deve estar se sentindo – assim como eu – bem mais confortável neste cenário presente.

Neste momento pode-se perceber que Sofia está apressada. Se você prestou atenção, percebeu que ela demora a se arrumar, o que pode ser embaraçoso para nós, que a estamos observando, mas não se preocupe: ela não sabe de nossa existência. Verdadeiramente, passaram-se trinta minutos desde que decidimos pôr nossos olhos nesse cenário, e este era exatamente o momento em que nossa amiga estaria saindo, se não fosse considerada essa tristeza súbita que a invadiu.

Eu conheço sua empatia, caro leitor (ou leitora), mas somos impotentes. Nossas mães já falavam que chorar faz bem, e talvez isso sirva de consolo, já que Sofia estava sofrendo em silêncio desde que naquele dia anterior recebera a visita do seu ex-namorado, avisando que iria trabalhar lá do outro lado do mundo, e que não seria mais saudável um relacionamento. Mas esta é a vida e seus relances talvez não agradem a muita gente, eis o problema da existência.

Talvez sirva de consolo também saber que naquele momento John saía de sua casa e se não fosse o terrível choro de Sofia, os dois se conheceriam. E por que isso não seria bom? Ah cara amiga (ou amigo), a vida é um mistério, mas algumas coisas são tão exatas como uma conta de somar: se Sofia saísse naquele momento, iria chegar em tempo para receber um certo relatório constando o nome de John e recomendando sua demissão, por não ter cumprido com o acordado. Sim, não se espante: nossa querida Sofia é a Chefe do setor no qual John trabalha.

Desta forma, ela teria chamado John, conversado com ele, e como se sabe bem, “a primeira impressão é a que fica”. A primeira impressão, neste caso, seria de que o nosso herói não cumpre com seus compromissos: ora, esta é uma qualidade que se procura em um homem? Porém, Sofia não o teria demitido, não é o mais lógico de se fazer: o setor era uma novidade, precisava de qualquer ajuda possível.

Mas não foi isso o que se concretizou. Sofia ainda demorou quinze minutos para sair de casa, e como é de se perceber, continua impecável, como se não tivesse chorado um instante. Porém, o caos conspira a nosso favor, amigo leitor e amiga leitora. Um novo ônibus só chegaria em mais quinze minutos, dando uma hora inteira de vantagem ao nosso herói. Vantagem para nós que estamos nesta visão cosmológica das coisas, mas ele não percebeu assim.

Chegando ao trabalho, fora chamado para apresentar o trabalho. Nosso amigo é sincero – perceba – e não iria inventar qualquer coisa para se livrar do possível castigo. Mas o mundo não é para pessoas boas, mas para pessoas oportunistas: como você vê neste instante, ele sai cabisbaixo do prédio quase sem rumo, ao mesmo tempo em que Sofia chega apressada do lado oposto, sem nem ao menos notar a existência do tristonho John.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Horóscopo de Hoje.




Estes charlatães de hoje em dia são criminosos piores que os homicidas: não só aniquilam a vida, mas as ideias!
Temos o paradigma positivista, mas a quantidade de "conhecimentos" que se valem de conceitos imaginários é impressionante, o dinheiro gasto em astrologia é dez vezes superior ao investimento em pesquisas astronômicas. É a mesma coisa que se investíssemos em alquimia, ao invés de pesquisas em química! Astrologia, alquimia, ocultismo e outros tipos de charlatanismo são exemplos de nosso capitalismo, que influencia aquilo que fascina e é de fácil entendimento para o público em geral visando ao lucro, mas que não possuem bases concretas de comprovação, sendo até absurdos se estudados a fundo com amparo científico.
Cuidado com o que lê.