terça-feira, 29 de novembro de 2011

7 fatores que fazem as pessoas acreditarem em coisas estranhas


Por Ana Carolina Prado

Em Como as pessoas funcinam.


Em uma pequena cidade de Illinois (EUA), um bandido misterioso – e bizarro – estampava as capas dos jornais lá por volta de 1944. Tudo começou com uma mulher que declarou que um homem entrou em seu quarto no meio da noite e anestesiou suas pernas com um spray a gás paralisante. Logo apareceram os jornais com manchetes como “BANDIDO DO ANESTÉSICO À SOLTA”. E, nos 13 dias seguintes, cerca de 25 casos semelhantes foram relatados e amplamente explorados pela imprensa. A polícia da cidade ficou de prontidão. E os maridos com suas armas carregadas. Duas semanas depois, ninguém havia sido preso. E nenhum vestígio químico havia sido descoberto. Assim, tanto a polícia quanto a mídia começaram a se referir ao evento como um caso de “histeria de massa”.

Ondas de avistamentos de ETs, chupacabras, fantasmas ou bandidos bizarros cuja existência nunca foi comprovada aparecem de tempos em tempos em diversos lugares. Às vezes, vira moda ver sinais milagrosos – ou mensagens malignas escondidas em músicas, rótulos, filmes. Mas o que leva uma pessoa a acreditar em coisas como essas? É disso que fala o livro “Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?”, do psicólogo e historiador da ciência americano Michael Shermer. O critério usado por ele para definir o que são coisas “estranhas” é a falta de evidências científicas para comprovar sua existência.

Com base no livro, listamos alguns fatores que influenciam nesse tipo de crença – e podem fazer, inclusive, com que pessoas extremamente inteligentes sejam pegas. Afinal, garante ele, ninguém está completamente imune à histeria coletiva. Dê uma lida e depois diga pra gente se você concorda ou não.

1. Elas querem acreditar

Segundo Michael Shermer, a principal razão pela qual as pessoas acreditam em coisas estranhas é simpes: elas querem acreditar. Mas por que? Porque dá bem-estar, é reconfortante e consola. Para Shermer, se alguém perguntar qual é a sua posição sobre a vida após a morte, é provável que você diga que é favorável. E explica: “O fato de eu ser favorável à vida após a morte não significa que vou consegui-la [ou que ele acredito nela]. Mas quem não a quereria? É esse o ponto. É uma reação muito humana acreditar nas coisas que nos fazem sentir melhor”.

2. A gratificação imediata

Muitas crenças estranhas promovem um bem-estar instantâneo. Shermer cita no livro o exemplo dos médiuns que atendem pelo telefone – a um custo de 3,95 dólares por minuto. Eles usam as chamadas técnicas de leitura a frio: vão tentando adivinhar as coisas partindo de informações mais gerais (envolvendo coisas banais que são verdadeiras para quase todo mundo, como “pressões financeiras vêm lhe causando problemas” – afinal, até Eike Batista terá um dia difícil se perder grana no mercado financeiro). A partir das pistas que as pessoas vão dando, os supostos médiuns conseguem deduzir as informações mais específicas que irão impressionar. Se o médium diz algo que não corresponde à realidade da pessoa naquele momento, a saída é simples: ele diz que a coisa vai acontecer no futuro. E a pessoa acredita. Afinal, a grande sacada é que eles não precisam estar certos o tempo todo. “Quem telefona costuma esquecer os erros e lembrar mais dos acertos e, o mais importante, as pessoasdesejam que o médium acerte. Os céticos não gastam 3,95 dólares por minuto nisso, mas os crentes sim”, explica o autor.

3. Simplicidade

Para termos uma gratificação imediata, é preciso que as crenças tenham explicações simples para as coisas complexas do mundo. “Coisas boas e ruins acontecem tanto para as pessoas boas quanto para as ruins, aparentemente de modo aleatório. As explicações científicas costumam ser complicadas e requerem treino e esforço para ser entendidas. A superstição e a crença no destino e no sobrenatural oferecem um caminho mais simples”, diz Shermer. Para ilustrar isso, ele conta uma experiência de Harry Edwards, chefe da Australian Skeptics Society (Sociedade dos Céticos Australianos).

Edwards publicou uma carta num jornal local falando sobre uma galinha de estimação que ele costumava carregar empoleirada nos seu ombro. Às vezes, porém, ela não se segurava e acabava deixando um “cartão de visitas” na sua camisa. Mas o que poderia ser algo desagradável acabava dando origem a acontecimentos muito positivos. Edwards listou alguns desses episódios e os correlacionou com certos eventos que ocorriam em seguida e chegou à conclusão de que o cocô da galinha lhe trazia boa sorte. Sempre que ela carimbava sua roupa, ele encontrava uma carteira com dinheiro, ganhava na loteria, recebia alguma notícia boa. Então ele levou a ave para várias consultas espirituais e descobriu que ela havia sido um filantropo numa vida passada e que tinha reencarnado para fazer o bem às pessoas – por meio de suas fezes. Assim, Edwards terminou sua carta ao jornal oferecendo-se para vender saquinhos com o “cocô da sorte” de sua galinha. Era tudo um teste, mas ele recebeu dois pedidos e 20 dólares pela “mercadoria”. Sim, houve pessoas que compraram a história. Porque ela era simples – mais fácil que as leis da probabilidade, por exemplo.

4. Nível de incertezas e perigos do local

O local onde a pessoa está influencia suas crenças. Estudos mostraram que quanto mais incertezas o ambiente oferece, maior é a superstição. O antropólogo Bronislaw Malinowski constatou, por exemplo, que os habitantes das ilhas Trobriand, no litoral da Nova Guiné, recorriam mais a rituais supersticiosos à medida que se afastavam no mar para pescar. Nas águas calmas das lagoas a que estavam acostumados, os rituais desapareciam. Ele concluiu, então, que a magia aparece em situações em que estão em jogo a incerteza, o acaso e um jogo emocional intenso entre a esperança e o medo. “Não encontramos isso quando a atividade é certa, confiável e está sob o controle de métodos racionais e processos tecnológicos”, conta Malinowski.

5. Abertura a novas experiências

Estudos envolvendo experiências místicas concluíram que as pessoas com maior predisposição ao misticismo (ou seja, à crença em coisas estranhas) tendem a ter uma personalidade com altos níveis de complexidade, abertura a novas experiências, variedade de interesses, inovação, tolerância à ambiguidade e criatividade. Elas também podem ter maior propensão a serem absorvidas em fantasias, capacidade de suspender o processo de julgamento que permite separar eventos reais e imaginação e uma boa disposição de investir seus recursos mentais para representar o objeto imaginário do modo mais vívido possível.

6. O fato de pessoas inteligentes em um campo da ciência não serem necessariamente inteligentes em outro

Michael Shermer chama atenção para o fato de que muitos pesquisadores brilhantes em certas áreas podem cometer erros e deixar passar fatos importantes, por ignorância, ao fazerem incursões em outras áreas. “Os recém-chegados de outros campos, que em geral se enfiam com os dois pés sem o treino e a experiência exigidos, passam a gerar novas ideias que consideram – por causa do sucesso que obtiveram em seu próprio campo – revolucionárias”. O problema é que, na maioria dos casos, aquelas ideias já foram avaliadas anos ou até décadas antes – e foram rejeitadas por razões legítimas.

7. “Pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas porque têm capacidade para defender crenças às quais chegaram por razões não inteligentes”

Segundo Shermer, a maioria das pessoas constitui suas crenças por uma variedade de razões que não têm muita evidência empírica nem raciocínio lógico. Elas fazem suas escolhas segundo variáveis como a constituição genética, social, influência de familiares e amigos, experiências pessoais etc. “Selecionamos dentre a massa de dados aquilo que confirme mais as coisas em que já acreditamos e ignoramos ou racionalizamos o que não vem confirma-las. Todos fazemos isso, mas as pessoas inteligentes fazem melhor, seja por talento ou por estarem treinadas”, explica. Assim, elas também podem defender melhor suas crenças para si mesmas.


“Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?”
Michael Shermer, Editora JSN

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Pequeno Príncipe e o Direito.

Capítulo XIV

O quinto planeta era muito curioso. Era o menor de todos. Mal dava para um lampião e o acendedor de lampiões... O príncipezinho não podia atinar para que pudessem servir, no céu, num planeta sem casa e sem gente, um lampião e o acendedor de lampiões. No entanto, disse consigo mesmo :

- Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, é menos absurdo que o rei, que o vaidoso, que o homem de negócios, que o beberrão. Seu trabalho ao menos tem um sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais uma estrela, mais uma flor. Quando o apaga, porém, é estrela ou flor que adormecem. É uma ocupação bonita. E é útil, porque é bonita.

Quando abordou o planeta, saudou respeitosamente o acendedor :

- Bom dia. Por que acabas de apagar teu lampião ?

- É o regulamento, respondeu o acendedor. Bom dia.

- Que é o regulamento ?

- É apagar meu lampião. Boa noite.

- Mas por que acabas de acendê-lo de novo ?

- É o regulamento, respondeu o acendedor.

- Eu não compreendo, disse o príncipezinho.

- Não é para compreender, disse o acendedor. Regulamento é regulamento. Bom dia.

E apagou o lampião.

Em seguida enxugou a fronte num lenço de quadrinhos vermelhos.

- Eu executo uma tarefa terrível. Antigamente era razoável. Apagava de manhã e acendia à noite. Tinha o resto do dia para descansar e o resto da noite para dormir...

- E depois disso, mudou o regulamento ?

- O regulamento não mudou, disse o acendedor. Aí é que está o drama! O planeta de ano em ano gira mais depressa, e o regulamento não muda !

- E então ? Disse o príncipezinho.

- Agora, que ele dá uma volta por minuto, não tenho mais um segundo de repouso. Acendo e apago uma vez por minuto !

- Ah! Que engraçado ! Os dias aqui duram um minuto !

- Não é nada engraçado, disse o acendedor. Já faz um mês que estamos conversando.

- Um mês ?

- Sim. Trinta minutos. Trinta dias. Boa noite.

E acendeu o lampião.

O príncipezinho considerou-o, e amou aquele acendedor tão fiel ao regulamento. Lembrou-se dos pores de sol que ele mesmo produzia, recuando um pouco a cadeira. Quis ajudar o amigo.

- Sabes ? Eu sei de um modo de descansar quando quiseres...

- Eu sempre quero, disse o acendedor.

Pois a gente pode ser, ao mesmo tempo, fiel e preguiçoso.

E o príncipezinho prosseguiu :

- Teu planeta é tão pequeno, que podes, com três passos, dar-lhe a volta. Basta andares lentamente, bem lentamente, de modo a ficares sempre ao sol. Quando quiseres descansar, caminharás... E o dia durará o quanto queiras.

- Isso não adianta muito, disse o acendedor. O que eu gosto mais na vida é de dormir.

- Então não há remédio, disse o príncipezinho.

- Não há remédio, disse o acendedor. Bom dia.

E apagou seu lampião.

Esse aí, disse para si o príncipezinho, ao prosseguir a viagem para mais longe, esse aí seria desprezado por todos os outros, o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios. No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.

Suspirou de pesar e disse ainda :

- Era o único que eu podia ter feito meu amigo. Mas seu planeta é mesmo pequeno demais. Não há lugar para dois...

O que o príncipezinho não ousava confessar é que os mil quatrocentos e quarenta pores de sol em vinte e quatro horas davam-lhe certa saudade do abençoado planeta !

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Glow

You know, when your life is a shadow,
And then suddenly it lights that tiny little spot,
A beautiful, perfect and shiny little spot,
That glows everything,
And the shadow turns into colors and the life itself begins to make sense.
The previous tiny spot turns into a glow that seems to be bigger than that room you call life.
She's now a star, a starry sky, in a starry night.
That, my dear friend, is what she means to me.
The beauty of life, the reason of living.
She's the life itself.

sábado, 12 de novembro de 2011

Microtextos #2

1. A vida humana se resume na tentativa constante de ser melhor que o outro, e na afirmação, ainda que falaciosa, de que esta condição é verdadeira.

2. A razão humana é produto da própria natureza externa a ela. A natureza molda a razão humana para apreciar o empirismo, na medida em que a inteligência é aprimorada através dos processos evolutivos. Conclui-se que a razão é produto da realidade, não o oposto.

3. O propósito é uma qualidade dos seres viventes, portanto o propósito da “vida” inexiste, já que assim a estaríamos personificando. O ser humano pode definir seu propósito, porém é influenciado desde pequeno por seu meio, cabe a ele, como ser “livre” que é, libertar-se o máximo possível dos grilhões desse meio e conquistar seu propósito verdadeiro.

4. É inútil querer seguir apenas o que é prático. O que é hoje, não tarda a deixar de ser. Precisa-se pensar a vida, para adequar-se ao devir.

5. Não estamos preparados para a razão. Nossa emoção cega a lógica: o que pensamos ser lógico é afetado pelos nossos sentidos, por isso eles não podem ser negados. É necessário seguirmos nossas emoções.

6. Nada é realmente novo ou inventado, tudo é uma (re)descoberta.

7. Esses charlatães são criminosos piores que os homicidas: não só aniquilam a vida, mas as ideias.

8. O Humanitas* se vê sob a túnica do Estado, cosido pelos elementos que o compõem, numa tentativa inútil de dominar a Besta.

9. Nós consumimos ou nós que somos consumidos? O capitalismo nos consome porque é disso que ele precisa para se nutrir: pessoas que o fortaleçam, pessoas que perdem suas vidas em seu nome, pessoas que não são mais pessoas, mas produtos de consumo em si mesmas, marcas personificadas que nascem para serem livres, mas que morrem sem conhecer a liberdade. Pessoas por conveniência, de existência simbólica, engrenagens da máquina capitalista, polidas desde a infância, doutrinadas, enganadas, modeladas para servir ao grande Deus dinheiro.

10. Justiça é o remédio imediato da injustiça, esta sendo um elemento próprio da nossa sociedade. Para vencer a injustiça, portanto, não se deve remediá-la, mas mudar a essência da natureza social, através de métodos que condicionem os comportamentos para que hajam conforme a justiça.

11. Se estes capitalistas pudessem comprar mais horas do que um dia tem, comprariam apenas para trabalhar mais e conseguir mais dinheiro. O dinheiro gera dependência: quanto mais se tem, mais se quer. Como conseguir viver com tal agonia?

12. Não se crê em pessoas, mas em evidências. Também é preciso avaliar evidências de um modo imparcial, sem apenas aceitar aquelas que colaborem com sua ideia, mas todas existentes. Seja seu maior inimigo na avaliação de evidências, a imparcialidade não é natural ao ser humano, deve ser forçado.

13. É um equívoco admitir que tudo é relativo, o mais correto seria inferir que em tudo há um grau de relativismo. Diz-se grau pois o universo admite certas constâncias e previsibilidades.

14. Estamos condenados a desistir de nossa consciência em prol de uma vida estável e “bem-vivida”. Ora, se nascemos condenados a sermos livres, isso não deveria implicar a impossibilidade de nos tornarmos escravos? Somos aqueles que, apesar de nossa situação, defendemos a liberdade como um princípio do Ser: talvez hipocrisia? Talvez ignorância? Conveniência ou superstição? A consciência, para ser livre, necessita primordialmente cumprir seu papel: conhecer-se, descobrir-se na condição em que se encontra. Ainda que impossível seja a plena liberdade, a escravidão é apenas uma escolha.

15. Muitos costumam negar a existência do acaso, “nada é por acaso”, costumam afirmar. A vontade de ter sua vida sob controle é uma constante nos seres humanos, e por bem, já que assim evitaríamos o desconhecido, ou simplesmente confiaríamos mais no porvir. Acontece que o acaso é tão mais belo que um futuro fechado, tão quadrado...

16. Nós somos nossos corpos, seus desejos são nossos desejos. Toda a irracionalidade e instinto, é o que somos. Por este motivo somos livres, pois as limitações impostas pelos nossos corpos são também nossas limitações. Nem sequer podemos negar um instinto, mas ponderá-lo de acordo com as situações, admitindo que somos animais com um pouco de racionalidade...

17. Não há sequer um aspecto da vida que seja péssimo. Se por acaso houver uma definição que não dê margens a otimismos, isso é porque você interpreta como um pessimista, baseado em seus princípios pessoas. Neste caso, não é a realidade que seja péssima, foi você quem errou ao escolher os seus princípios. (no caso schopenhaueriano, por exemplo, não há pessimismo, mas uma perspectiva sobre uma mesma realidade que é interpretada como péssima.)

18. Há uma mania de dicotomia que me incomoda. Grandes problemas do homem se resolverão quando percebermos que corpo e mente são um só. Só há o corpo, suas limitações são nossas limitações, por isso somos livres, desde que convivamos com esse princípio. Pelo mesmo motivo a felicidade pode ser alcançada por um hedonismo epicurista.

19. Se algo é banido apenas por ser contra os “bons costumes”, somente por este motivo deveria ser reivindicada sua permissão: o problema não é o fato proibido, mas os próprios costumes que são pervertidos por ideias tolas.

*Conceito que estou elaborando despretensiosamente, utilizando a terminologia machadiana, depois falarei algo, é basicamente um conceito metafísico equivalente a um conjunto social que se comporta de maneira mais ou menos uniforme.

sábado, 5 de novembro de 2011

Liberdade

1.Somos seres livres?

A uns seis meses atrás eu responderia que não, que era impossível compreender a mente humana como algo livre, e diria que somos escravos de nosso próprio corpo. Isso pode ser constatado em um documentário que vi a algum tempo chamado "Science of Lust", que mostra homens comprando óculos escuros. São dadas para eles duas opções: comprar uns óculos comuns, cuja popularidade é alta, ou uns extravagantes, cuja popularidade é baixa. Se a venda de óculos é feita na frente de uma loja qualquer, o homem prefere os óculos normais, mas quando a barraquinha de vendas se move para a frente de um sex shop, os homens magicamente passam a preferir os óculos mais extravagantes. Ora, nada mais natural, ao ver o sex shop, o nível de testosterona no sangue sobe, e o homem passa a preferir algo que o destaque e o faça parecer o macho ideal para o acasalamento. Isso não se limita ao homem, muito menos à testosterona, hormônios ou outros fatores quaisquer podem modificar o comportamento humano e o induzir a decidir numa disparidade enorme em relação ao comportamento normal.

A liberdade, pensava eu, não existiria justamente porque nós sempre decidimos baseados nas necessidades do nosso corpo, e estamos demasiadamente limitados nesse sentido. O que me fez mudar de opinião foi a ideia do monismo. Monismo é a corrente teórica da filosofia da mente que afirma não existir a alma, sendo o corpo e a mente uma coisa só, difere do dualismo, tendo esta por princípio a divisão entre mente e corpo. Se eu encarasse de uma maneira dualista, como ocorre no cristianismo, jamais poderia afirmar que o livre-arbítrio é uma realidade, pois a liberdade de nossa alma é limitada severamente por nosso corpo. - no cristianismo também há uma ideia fortíssima de destino, já que Deus sabe de todo o futuro, e portanto este resta limitado. - Mas resolvi abrir os olhos. Nós somos nossos próprios corpos, e isso nos faz seres livres, pois já não podemos falar em escravidão, não existe uma limitação de liberdade de um ente (corpo) sobre outro (alma).

Basicamente, uma relação de não-liberdade justamente necessita de uma dualidade, o que nos faz lembrar que, neste sentido, podemos não ser tão livres assim. A imposição de ideologias é o clássico exemplo de limitação de liberdade, pois demanda um sujeito que estabeleceu a ideologia como verdadeira, e aqueles seus seguidores que a incorporaram como se sua fosse. Livre, nesta perspectiva, é aquele que deixa de ouvir a análise fenomenológica feita pelos outros e passa a ver o mundo diretamente, a ser um sujeito cognoscente propriamente dito. Tudo me faz lembrar muito bem da máxima "não confie nas pessoas, confie nas evidências", e isso se faz necessário para resguardar nossa bendita liberdade. Sim, eu levo em consideração que há influências intersubjetivas a todo o momento e que somos produtos dessas relações, mas isso é o normal esperado, não se trata de uma escravidão de uns pelos outros, mas um acidente, como tantos outros, de nossa própria natureza. Diferentemente ocorre na imposição de ideologias, já que há um propósito, ainda que implícito, de dominação e egoísmo quase psicótico.

Sim, nascemos seres livres, e somos seres livres desde que aprendamos a dizer não às ideias sem fundamento, que foram a nós parcialmente introjetadas.

Fuja de tudo que limite sua liberdade, olhe para o mundo, conheça-o.

2. Outra parte vital para entender esse problema do livre-arbítrio e sua saída é a questão da mimesis. Mimesis é a capacidade de aprendizagem observacional que todo ser humano possui como instinto. É algo fatalista, pois, fora daqueles pré-conhecimentos estabelecidos em nossos genes, tudo que somos provém de aprendisagem observacional, ou seja, da mimesis. Quando percebemos certa pessoa realizar determinada ação, avaliamos seus resultados. O instinto se encarrega de elencar aquele comportamento como digno de ser repetido se dele provêm bons resultados. Mas o que é bom depende de pessoa para pessoa, e nisso as coisas começam a se complicar, pois o julgamento de cada pessoa também provém de aprendizagem mimética.

Nessa perspectiva, a sociedade é uma rede retroalimentativa de mimesis que se torna caótica pelos elementos exteriores novos que a natureza dispõe. Mas aí encontramos outro problema, pois ao enfrentarmos situações novas, não nos desprovemos completamente da mimesis, mas adaptamos nossas experiências semelhantes para obter um resultado também satisfatório. A complexidade da sociedade surge exatamente dos elementos novos que introduzimos acidentalmente, procurando obter o mesmo resultado já uma vez alcançado. Não se trata aqui de uma análise filosófica sobre a inexistência do livre-arbítrio, mas uma constatação científica.

Essa última frase foi colocada para, a contra-senso, afirmar a existência da liberdade de decisões.

A primeira coisa a se lembrar do texto anterior é que não somos entidades flutuantes presas a um corpo. Se pensados assim, nós caímos no fatalismo de negação da liberdade. Somos nossos corpos, e tudo que o limita já deve ser tomado como ponto inicial para se definir o que é liberdade. Se encararmos a mimesis como um instinto, é o nosso instinto, e portanto deve ser ignorado na nossa definição de liberdade, visto que não existiria algo mais livre para afirmarmos que nossa liberdade é menor que ela. Nessa rede mimética da sociedade, nós ainda temos poder de escolha, e, ainda que pareça ser mínima, comparada a um ideal de liberdade total de um ser também ideal, é certa pois é o máximo possível em nossa existência. Somos livres por sermos o mais livres possível.

3. Certo, acostumados agora à ideia que a liberdade não se resta suprimida, é importante passar à sua definicão, já que me parece que a liberdade, da forma aue venho tratando, já assumiu um aspecto bem diferente do que estávamos acostumados. Não se trata de uma definição certa e outra errada. O problema que quero eliminar é que a definição de liberdade como previamente conhecida era de uma liberdade inexistente, que fatalmente acabaria por consumir-se, como um Eresictão da fome insaciável.

A liberdade, pois, tem de ser definida com os nossos corpos como ponto inicial. Mas também tem relação com o poder de escolha. Não podemos, por exemplo, decidir contra o nosso corpo, pois vai ser ele mesmo quem vai decidir em primeiro lugar. Digamos que eu esteja com fome e decida não comer. A decisão foi feita por nós, pelo nosso corpo, e se a vontade de não comer parte dele, não contrariamos nossos instintos!

Liberdade é, pois, o poder de escolha que nós, pelos nossos próprios corpos, possuímos, que é máxima, ainda que aparente conter limitações.

Eis o mistério da Vontade.