sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ensaio de um novo tratado teológico.


Todo fato imanente[1] é passível de demonstração probatória. Isto quer dizer que todo fenômeno (fato imanente, direcionado ao mundo dos acontecimentos) é passível de dilação probatória. Se um fato é impossível de ser provado, ele não será imanente, não correspondendo em nenhum momento com o mundo material. Sendo impossível de ser provado, irrelevante é para o conhecimento humano.
A necessidade de dilação probatória se dá como remédio à arbitrariedade filosófica constatada através dos tempos. Durante toda a existência humana, valores surgiram para definir causas e explicar fenômenos. Para cada teoria, apenas eram alegados motivos de ordem metafísica[2], longe da cognição objetiva[3]. As explicações eram dadas a partir de valores subjetivos, “achismos”, ou até mitos.
Nenhuma ideia surge do nada. O algo que traz a ideia à tona, pelas explicações de Aristóteles, são os eventos materiais, constatados no mundo dos fenômenos. Este é o materialismo aristotélico. Antes de ter ideia de “Trovão”, necessário é ouvir o estrondo por ele emitido, só aí podendo conceituá-lo. Se nunca tivéssemos ouvido um trovão, esta ideia jamais teria existido.
O estabelecimento da ideia pode ser dar de forma natural ou sintética. É natural quando a ideia surge diretamente de um evento material. É sintética quando se trata de uma invenção humana, para lhe servir como instrumento. Trovão, chuva, casa, homem, mulher, são exemplos de ideias puramente naturais. Processo, aritmética, são exemplos de ideias sintéticas (importante notar que não há ideias puramente sintéticas, pois, como visto, as ideias sempre são decorrentes de eventos materiais).
A ideia de Deus não nasceu do nada. Deve, como argumentado, ser uma ideia derivada de um acontecimento material. Isto não se contrapõe a qualquer religião, principalmente as abraamânicas[4], por seu caráter de Religião Revelada. Logo, pelo menos algum elemento deverá ser traduzido em um evento material, muito embora essas religiões tenham características majoritariamente transcendentes.
“Ônus da prova” diz respeito ao dever de provar. Diz-se “ônus”, pois a produção de provas é uma diligência na qual se empenha esforço. Tem o dever de provar, aquele que alega a condição, o fato, o ato, ou a constituição de outras alegações, isto é, o emissor da teoria. O ônus de prova da existência de Deus cabe a quem alega a sua existência, não podendo ser, este dever, invertido.
Porém, a senso comum, é considerado prova da existência divina a experiência subjetiva do encontro com Deus, através de orações e milagres. É de se considerar que uma prova, para ser válida, deverá ter caráter objetivo, verificável por todos, desconstituindo, de início, a possibilidade de uso desse tipo de prova.
Aqui é que se vira a mesa. Só porque um evento material se dá por caráter puramente subjetivo, não significa que ele não exista ou que possua outras explicações que não as alegadas pelo emissor. Porém, se existente, é possível haver uma “objetivação” deste evento, simplesmente estudando as suas causas. Acontece que, por tais eventos acontecerem no cérebro humano, mesmo que em caráter subsidiário (interação entre alma e cérebro, pela teoria da alma), não são possíveis de objetivação pela ciência moderna, tendo em consideração a complexidade de tal órgão.
Faz-se aqui a ressalva: só porque algo não é explicado cientificamente, não significa que a alegação do emissor é verdadeira. É de praxe a igreja católica, de forma muito perspicaz, utilizar do ceticismo para atribuir a característica de “milagre” a um evento apenas em última instância, quando já não há mais explicações científicas para aquele evento.
Porém, como é de se saber, muitos dos antigos “milagres”, foram desvendados com o passar do tempo, adquirindo explicações científicas. Desta forma, aqueles “milagres” deixaram de ser “milagres”? E os reconhecidos como tal agora, não o deixarão de ser também, futuramente?
Disso podemos entender que a aplicação de uma teoria de forma subsidiária não é possível, por tratar-se de uma falácia[5]. A teoria deve se dar de forma ativa, e, ainda que seja temporal, não perca futuramente sua veracidade (por exemplo, as teorias newtonianas da gravitação não foram negadas pelas de Einstein, mas apenas complementadas).
Também, é de se explicar, a contrário do que acredita o senso comum, que muitas dos eventos causadores dos fenômenos religiosos já possuem explicação científica. É o caso da esquizofrenia para os fenômenos de possessão, ou simplesmente o poder psicológico da mente em alterar, temporariamente, a percepção da realidade através de um fenômeno auto-induzido, como é o caso de materialização dos espíritos presente no espiritismo.
Desse modo, as explicações dos fenômenos religiosos que ainda não são possíveis de verificação objetiva, ficam apenas suspensas, até que seja possível apurar suas causas. Também se aplica a esse pensamento todos os eventos sobrenaturais subjetivos, mas que, por essa mesma característica, não podem, por enquanto, ser objetivados.
Contudo, admitindo-se uma presunção de boa-fé objetiva, não é possível afirmar a falsidade de qualquer alegação até a apuração refinada dos fatos, visto que, ao formar um juízo de valor negativo sobre ele, poder-se-ia estar prejudicando um evento verdadeiro alegado pelo emissor. Portanto, um juízo de valor positivo por alguém que não é partícipe de tais eventos como um juízo de valor negativo são juízos equivocados.
Desta forma, de preferência, deve-se haver a abstinência de juízo de valor, ressalvando o direito do receptor de questionar o emissor, por todos os meios que tiver acesso, inclusive propondo teorias alternativas, ou esclarecendo o emissor das teorias de constatação já objetivada.
Quanto à própria existência de Deus, tais argumentos revelam particularidades e semelhanças. O conhecimento do emissor da existência de Deus deve também ser objetivada, mas, alegando o emissor que Deus é o criador de todas as coisas, é necessário que seja Ele o “causador das causas”.
Infelizmente, tal teoria também é dúbia. Explica-se. É de conhecimento objetivo que o surgimento do universo se deu a, aproximadamente, 13,7 bilhões de anos, através de uma explosão que criou o próprio espaço-tempo. Sendo assim, não existia nada antes do big bang. Não havia tempo, nem espaço. Quanto mais nos aproximássemos, em suposição, desta explosão, mais viríamos o tempo diminuir, até parar de vez, no seu primeiro instante.
Ocorre que tal explosão é fruto de uma anomalia quântica chamada “flutuação quântica” e que, se houver apenas uma realidade, tal anomalia não teve causa alguma, por sua própria natureza. Porém, em havendo mais de uma realidade, como supõe a teoria das cordas (parte da física teórica que ainda não tem conjunto probatório para definir sua existência), é possível que haja uma causa.
Portanto, apesar de não ser possível o universo ser criado por alguém antes do big bang, é possível – portanto, uma suposição – sua criação para além de tal explosão. Porém, como visto, isto se dá por decorrência de uma teoria ainda não provada (a teoria das cordas ainda está em vias de ser provada).
Isto é, de qualquer forma, quanto a Deus na função de criador de todas as coisas, seria necessária uma dilação probatória extremamente longa (não seria preciso apenas provar a teoria das cordas, como também ser o universo sintetizado por algum Ser de uma realidade paralela). Além do mais, essa não é a única teoria de realidade sintética existente.
Enfim, um juízo de valor, nos casos explicitados, até que não sejam analisadas as provas objetivas, é um juízo teoricamente impraticável. Podemos até fazer uma analogia com a teoria da física apresentada mais acima: pode-se entender a relevância da teoria, trabalhar com ela, mas não viver como se ela fosse verdadeira ou falsa, nem emitir juízos de valor. Não se poderia emitir tais juízos pois pode ser desrespeitoso afirmar a um físico teórico que sua teoria não vai dar em nada por ser falsa, dentre outros inúmeros motivos.
A abstinência se dá pelo ceticismo, em se tratando de vários eventos sobrenaturais, ou pelo agnosticismo, em se tratando da existência de Deus. Não se emite juízo de valor, apenas uma demanda pela prova objetiva do emissor, uma possibilidade de contra-argumentação, a proposição de teorias diversas mais viáveis, ou o devido esclarecimento através de uma teoria já previa e objetivamente comprovada.
Tal é o sentido que se caminha no agnosticismo.

PS: Sobre o aspecto ético e moral, logicamente podem ser utilizadas como pauta as filosofias cristã e budista, que definiram muito do que é considerado moral hoje. Isto porque, ainda que esta mesma moral seja uma construção de aprendizado, ela deve ser utilizada a benefício da coletividade, o que se perfaz pelos princípios cristãos e budistas. O Humanismo também deve ser levado em consideração, lembrando que deve ser adicionado a ele o sentimento cosmológico da ética ambiental, vendo-se a natureza como instância acima do homem.
PPS: Importantíssimo acrescentar que não se pode invocar a bíblia como instrumento probatório objetivo, pois, se assim o fosse invocado, abriria a necessidade de se provar a veracidade da própria bíblia, que por nada mais é constatável, senão pelas palavras da própria bíblia. Cria-se, então, um argumento tautológico: é verdadeiro pois tem escrito que é verdadeiro.


[1] Entenda-se como “material”, pertencente ao mundo dos fenômenos.
[2] Baseado em simples aparências.
[3] Os fatos alegados não tinham como ser confirmados, cabendo apenas ao receptor da teoria se convencer ou contraditar a opinião do emissor.
[4] Cristianismo, Judaísmo e Islamismo são exemplos de religiões abraamânicas (de Abraão)
[5] Falha argumentativa.

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