quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Amor


O homem nasceu para amar. Este aspecto, apesar de reducionista, não deixa de ser verdade. Mas, de certa perspectiva, todos os atos realizados pelo homem têm um intento de propagação da espécie. O amor aí deixa de ser a finalidade e passa a ser o meio, ou um dos meios, que levarão à bem-sucedida propagação dos genes. Desta forma (note que é uma perspectiva), nós estudamos para conseguirmos um bom trabalho, imaginando que bons trabalhos são os que propiciam uma melhor remuneração (além, claro do bem-estar), para podermos ter mais fundos para financiar a construção de uma família.

Tal construção é o fim, para o qual somos levados sob uma força invisível a qual Schopenhauer denominou Vontade para a vida, ou simplesmente Vontade. Posteriormente Freud usaria o inconsciente para justificar as mesmas situações – Freud era assíduo leitor de Schopenhauer. Ora, não temos consciência das nossas finalidades no mundo, mas algo nos impulsiona fortemente para algum lugar. Schopenhauer cai na metafísica para explicar diversas situações, mas tais explicações podem ainda ser aproveitadas.

Voltemos um pouco no tempo e nos deparamos com a definição kantiana de que a coisa-em-si é impossível de ser por nós verificada tal como ela é na natureza. Adicionemos a sábia constatação schopenhaueriana que nós mesmos somos coisa-em-si, e chegamos a conclusão de que é impossível para nós conhecermos uns aos outros e, infelizmente, a nós mesmos.

Isso não somente é constatado pelas análises metafísicas de Kant, que definia que nossa percepção acabaria por interferir sempre na apreciação do objeto, mas pela própria complexidade do ser humano, aliada a sua constante mutabilidade, que sugeririam que sempre que o sujeito cognoscente terminasse o exame de todas as características possíveis de uma outra pessoa, ela já haveria se transformado em uma completamente diferente. A indeterminância, nesse caso, gera angústia.

Desta forma, parece extremamente plausível que quando alguém ama outro, não há um mútuo conhecimento. Na verdade, não é a outra pessoa que é amada, mas uma representação dela, construída pela aprendizagem, bastante distorcida e frágil na mente do sujeito amante. Todos os atos provocados pela outra parte, até que aleatórios e não condizentes com sua personalidade, são analisados e internalizados como se formassem a figura do sujeito amado.

Assim como não é possível conhecer a pessoa-em-si, não é possível amá-la. Isto gera um problema tão grande que faz parte do próprio funcionamento da Vontade. E este problema é o final de um relacionamento. O relacionamento é importantíssimo para a Vontade porque é ele quem, precipuamente, dá continuidade aos nossos genes através da criação da prole. Pode parecer óbvio, mas não é aproveitável um relacionamento duradouro, haja vista a falta de diversidade genética que resultará. Muito mais aproveitável são vários relacionamentos durante a vida.

Assim, a Vontade usa a impossibilidade de se conhecer a pessoa-em-si para proveito próprio. Se o sujeito amado vir a agir em discordância com a sua representação existente na nossa mente, ocorre o que é comumente chamado de “decepção”. Atitudes não esperadas são capazes de gerar decepções, ainda que sejam da própria natureza das pessoas, mas não de suas representações, que tendem a ser simplistas. O caso é extremado quando pensamos ser justamente o oposto, e que a pessoa, de uma hora para outra, passou a se comportar fora de seus padrões.

O ponto alto é que há formas de contornar esta situação. Uma delas é saber desta condição. Sabendo que nunca se conhece realmente alguém, e principalmente sabendo que haverá decepções cedo ou tarde, há uma preparação psicológica do porvir, que implica um amortecimento das emoções futuras. De Schopenhauer podemos aprender que para realmente amar alguém, é preciso estar preparado para deixá-lo.

Esta é a sabedoria de um homem mal compreendido como pessimista. Schopenhauer nos dá uma saída para uma das maiores problemáticas da vida, que, apesar de ser feita de decepções, de quedas, pode ser bastante aproveitável se nos aventurarmos a entendê-la.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Charlatanismo Quântico

Por Victor J. Stenger

A Física Quântica é reivindicada para apoiar a noção mística que a mente cria a realidade. Porém, uma realidade objetiva, sem qualquer papel especial para a conciência, humana ou cósmica, é consistente com todas as observações.

Certas interpretações da mecânica quântica, a teoria revolucionária devolvida no inicio do século XX para explicar o comportamento anômalo da luz e dos átomos, estão sendo deturpadas de forma a implicar que apenas os pensamentos são reais e que o universo físico é o produto de uma mente cósmica à qual a mente humana está ligada através do espaço e do tempo. Essa interpretação tem fornecido uma base aparentemente científica para várias alegações de mente sobre a matéria, da PES à medicina alternativa. O “misticismo quântico” forma também parte do sustentáculo intelectual da asserção pós-moderna de que a ciência não pode dizer nada sobre uma realidade objetiva.

A palavra “quantum” aparece frequentemente na literatura da Nova Era e na mística moderna. Por exemplo, o físico Deepak Chopra (1989) tem promovido com sucesso a noção que ele chama de cura quântica, que sugere que nós podemos curar todos os nossos males pela aplicação de energia mental suficiente.

De acordo com Chopra, esta conclusão profunda que pode ser extraída da física quântica, que ele diz ter demonstrado que “o mundo físico, incluindo nossos corpos, é uma resposta ao observador. Nós criamos nossos corpos como criamos a experiência do nosso mundo”. (Chopra 1993, 5). Chopra também afirma que “crenças, pensamentos e emoções criam as reações químicas que sustentam a vida em cada célula” e “o mundo em que você vive, incluindo a experiência do seu corpo, é completamente ditado por como você aprendeu a percebê-lo” (Chopra 1993, 6). Assim, doença e envelhecimento são uma ilusão, e podemos atingir o que Chopra chama de “corpo sem idade, mente sem tempo” pela livre força da consciência. [1]

Amit Goswami, no Universo Auto Consciente: Como a Consciência Cria o Mundo Material, argumenta que a existência de fenômenos paranormais é apoiada pela mecânica quântica.

[...] fenômenos físicos, tais como a clarividência e as experiências fora do corpo, são exemplos da operação não localizada da consciência… a mecânica quântica dá sustentáculo a tal teoria fornecendo um apoio crucial para o caso da não-localidade da consciência. (Goswami 1993, 136)

Uma vez que nenhum indício convincente e reprodutível para os fenômenos paranormais foi descoberto, apesar de 150 anos de esforço, essa é de fato uma base tênue para a consciência quântica. [2]

Embora seja dito que o misticismo existe nos escritos de muitos dos físicos proeminentes do principio do século XX (Wilber 1984), a moda atual da física mística começa na verdade com a publicação, em 1975, do Tao da Física de Fritjof Capra (Capra 1975). Nele, Capra afirma que a teoria quântica confirmou os ensinamentos tradicionais dos místicos orientais: de que a consciência humana e o universo formam um todo interconectado e irredutível. Um exemplo:

Para o homem esclarecido [...] cuja consciência abarca o universo, para ele o universo se torna seu “corpo”, enquanto o corpo físico se torna uma manifestação da Mente Universal, sua visão interior uma expressão da realidade mais elevada, e sua fala uma expressão da verdade eterna e do poder mântrico. Lama Anagarika, Govinda Foundations of Tibetan Mysticism (Capra 1975, 305) [3]

O livro de Capra foi uma inspiração para a Nova Era e “quantum” se tornou o jargão usado para embelezar a espiritualidade modernosa pseudocientífica que caracteriza o movimento. [4]

Dualidade Onda-Partícula

A mecânica quântica é vista, mesmo por muitos físicos, como sendo cheia de mistérios e paradoxos. Os místicos os buscam para apoiar suas visões. A fonte da maioria dessas alegações pode ser traçada à assim chamada dualidade onda-partícula da física quântica: objetos físicos, em nível quântico, parecem possuir propriedades tanto locais, reducionistas, de partícula, quanto propriedades não-locais, holísticas, de onda, que se tornam manifestas dependendo da medida da posição ou do comprimento de onda do objeto for medida.

Os dois tipos de propriedade, onda e partícula, parecem ser incompatíveis. A medida de uma quantidade geralmente afetará o valor que a outra quantidade vai ter em uma medição futura, portanto, o valor a ser obtido na medição futura é indeterminado, ou seja, é imprevisível, embora a distribuição estatística de um conjunto de medições semelhantes seja previsível. Dessa forma, a mecânica quântica obtém sua qualidade indeterminística, geralmente expressa em termos do princípio da incerteza de Heisemberg. Em geral, o formalismo matemático da mecânica quântica pode prever apenas distribuições estatísticas. [5]

Apesar da dualidade onda-partícula, a imagem da partícula é mantida na maioria das aplicações da mecânica quântica. Átomos, núcleos, elétrons e quarks são todos considerados como partículas em algum nível. Ao mesmo tempo, as “ondas” clássicas como luz e som são substituídas por fótons e fônons, respectivamente, localizados, quando os efeitos quânticos devem ser considerados.

Na mecânica quântica convencional, as propriedades de onda das partículas são representadas formalmente por uma quantidade matemática chamada função de onda, usada para computar a probabilidade de que a partícula será encontrada em uma posição particular. Quando se faz uma medição, e sua posição é então conhecida com grande precisão, diz-se que a função de onda “colapsa”, como ilustrado na Figura 1.

Figura 1. A função de onda colapsa na mecânica quântica convencional. Um elétron é localizado passando através de uma abertura. A probabilidade de que ele será, então, encontrado em uma certa posição é determinada pela função de onda ilustrada à direita da abertura. Quando o elétron é, então, detectado em A, a função de onda instantaneamente colapsa de modo que seja zero em B.

Einstein nunca gostou da noção de que a função de onda colapsa, chamando-a de “ação sobrenatural a distancia”. Na Figura 1, um sinal pareceria se propagar com velocidade infinita de A para B para dizer à função de onda para colapsar a zero em B uma vez que a partícula tenha sido detectada em A. De fato, o sinal precisa se propagar a velocidade infinita através do universo uma vez que, antes da detecção, o elétron poderia em princípio ter sido detectado em qualquer lugar.

Isso certamente viola a afirmação de Einstein de que nenhuma mensagem pode se mover mais rapidamente que a velocidade da luz.

Embora eles geralmente não sejam tão explícitos, os místicos quânticos parecem interpretar a função de onda como algum tipo de vibração de um éter holístico que preenche o universo, tão “real” quanto a vibração do ar que chamamos de onda sonora. O colapso da função de onda, no ponto de vista deles, acontece instantaneamente através do universo por um ato de vontade da consciência cósmica.

Em seu livro O Universo Consciente, Menos Kafatos e Robert Nadeau identificam a função de onda com “O Próprio Ser”:

Pode-se então concluir que o Ser, em seu análogo físico pelo menos, foi “revelado” na função de onda… Toda sensação que temos de uma unidade profunda com o cosmos… poderia ser entendida como correlata com a ação da função de onda determinística…. (Kafatos and Nadeau 1990, 124)

Assim, seguem Capra ao imaginar que a mecânica quântica une a mente com o universo. Mas o nosso senso interno de “profunda unidade com o cosmos” é dificilmente um indício científico.

A interpretação convencional da mecânica quântica, promulgada por Bohr e ainda mantida pela maioria dos físicos, não diz nada sobre consciência. Ela se preocupa apenas com o que pode ser medido e que predições podem ser feitas sobre como as distribuições estatísticas de conjuntos de medições futuras. Como notado, a função de onda é simplesmente um objeto matemático usado para calcular probabilidades. Construções matemáticas podem ser tão mágicas quanto qualquer outro fragmento da imaginação humana — como a nave estelar Enterprise ou o desenho do Papa-léguas. Em lugar algum a mecânica quântica implica que a matéria real ou mensagens viajem a velocidades mais rápidas do que a da luz. Na verdade, foi provado ser impossível a propagação de mensagem superluminal em qualquer teoria consistente com a relatividade convencional e com a mecânica quântica (Eberhard e Ross, 1989).

Interpretações Românticas

Nem todos ficaram satisfeitos com a interpretação convencional da mecânica quântica, que não oferece explicação alguma para o colapso da função de onda. O desejo de consenso sobre uma interpretação ontológica da mecânica quântica levou a centenas de propostas através dos anos, nenhuma ganhando nem mesmo uma maioria simples de apoio entre os físicos ou filósofos.

Impulsionados pela insistência de Einstein de que a mecânica quântica é uma teoria incompleta, que “Deus não joga dados”, tem-se buscado teorias subquânticas envolvendo “variáveis ocultas” que deem lugar a forças que jazem abaixo dos níveis atuais de observação (Bohm e Hiley, 1993). Embora tais teorias sejam possíveis, não se encontrou ainda nenhum indício para forças subquânticas. Além disso, foram feitos experimentos que tornam quase certo que nenhuma dessas teorias, se determinística, deverá envolver conexões superluminais. [6]

Mesmo assim, os místicos quânticos saudaram a possibilidade de haver variáveis ocultas, holísticas, não-locais com o mesmo entusiasmo que mostraram para a função de onda consciente. Da mesma forma, abraçaram um terceiro ponto de vista: a interpretação de muitas palavras de Hugh Everett (Everett, 1957).

Everett mostrou, de forma útil, como era possível eliminar formalmente o colapso da função de onda em uma teoria quântica das medidas. Everett propôs que todos os caminhos possíveis continuam a existir em universos paralelos que se dividem cada vez que é feita uma medição. Isso deixou aberta a porta para os místicos quânticos alegarem que a mente humana age como um tipo de “seletor de canais” para o caminho que é seguido por um universo individual enquanto existe em todos os universos (Squires, 1990). Desnecessário dizer, a ideia de universos paralelos tem atraído seu próprio círculo de proponentes entusiastas, em todos os universos, provavelmente.

Não-Localidade Efetiva

O mundo quântico é admitidamente diferente do mundo da experiência cotidiana que obedece às regras da mecânica clássica Newtoniana. Algo além do senso comum normal e a física clássica é necessário para descrever os processos fundamentais dentro dos átomos e núcleos. Em particular, deve ser dada uma explicação para a não-localidade aparente, o “salto quântico” instantâneo, que tipifica a natureza incomum dos fenômenos quânticos.

Apesar da alegação muito ouvida de que as partículas quânticas não seguem caminhos bem definidos no espaço-tempo, os físicos de partículas elementares têm utilizado exatamente esse quadro por cinquenta anos. Como isso é conciliado com o salto quântico que parece caracterizar as transições atômicas e fenômenos similares? Podemos ver, agora, no diagrama do espaço-tempo mostrado na Figura 2.

Figura 2. Não-localidade efetiva. Como um “salto quântico” aparentemente instantâneo pode ser feito entre dois pontos no espaço. Um par elétron-pósitron é criado em C por uma flutuação quântica do vácuo. O pósitron aniquila um elétron em A, desfazendo a flutuação original do vácuo de modo que há mudança zero de energia. O elétron, portanto, parece ter feito um salto quântico instantâneo de A para B. A distancia AB é comparável ao comprimento de onda associado com a partícula, assim um comportamento de onda “holístico” acontece.

À esquerda, um elétron (e-) está se movendo ao longo de um caminho bem definido. Um ar elétron-pósitron é produzido no ponto C por uma flutuação quântica do vácuo, permitida pelo princípio da incerteza. O pósitron aniquila o elétron original no ponto A enquanto o elétron do par continua além do ponto B. Uma vez que todos os elétrons são indistinguíveis, parece como se o elétron original tivesse saltado instantaneamente de A para B.

Na Figura 2, todas as partículas envolvidas seguem caminhos definidos. Nenhuma se move mais rapidamente que a velocidade da luz. Ainda assim, o que se observa é operacionalmente equivalente a um elétron se movendo a uma velocidade superluminal, desaparecendo em A e aparecendo simultaneamente em um ponto distante B. Nenhum experimento pode ser executado no qual o elétron à esquerda possa ser distinguido daquele à direita. Um cálculo simples mostra que a distancia AB é da ordem do comprimento de onda (de Broglie) da partícula. Desse modo, a natureza de onda “holística” das partículas pode ser entendida de um modo que não requer movimento superluminal e certamente nenhuma intervenção da consciência humana.

Além disso, uma vez que o salto quântico é aleatório, nenhum sinal de outro efeito causal é transmitido superluminalmente. Por outro lado, uma teoria determinística baseada em forças subquânticas ou variáveis ocultas é necessariamente superluminal.

Assim, a mecânica quântica, como praticada convencionalmente, descreve os saltos quânticos sem um salto quântico drasticamente além do bom senso. Certamente nenhuma alegação mística é justificada por quaisquer observações relacionadas aos processos quânticos.

Conclusão

A mecânica quântica, a peça central da física moderna, é mal-interpretada como se implicasse que a mente humana controla a realidade e que o universo é um todo conectado que não pode ser entendido pela mera redução às partes.

Entretanto, nenhum argumento ou indício decisivo requer que a mecânica quântica tenha uma papel central na consciência humana ou que forneça conexões holísticas instantâneas através do universo. A física moderna, incluindo a mecânica quântica, permanece completamente materialista e reducionista na medida em que é consistente com todas as observações científicas.

O comportamento aparentemente holístico e não-local dos fenômenos quânticos, como exemplificado por uma partícula parecendo estar em dois lugares ao mesmo tempo, pode ser entendido sem se descartar o bom senso da noção das partículas seguindo caminhos definidos no espaço e no tempo ou exigindo que sinais viagem mais rapidamente que a luz.

Nenhum movimento ou sinalização superluminal foi alguma vez observado, em concordância com o limite definido pela teoria da relatividade. Ademais, as interpretações dos efeitos quânticos não precisam demolir a física clássica ou o bom senso para tornarem-se inoperantes em todas as escalas — especialmente na escala macroscópica na qual os humanos funcionam. A física Newtoniana, que descreve com sucesso virtualmente todos os fenômenos macroscópicos, segue suavemente o limite de muitas partículas da mecânica quântica. E o bom senso continua a se aplicar na escala humana.

Sobre o Autor

Victor J. Stenger é professor de física e astronomia na Universidade do Havaí e autor de Not By Design: The Origin of the Universe (Prometheus Books, 1988) e Physics and Psychics: The Search for a World Beyond the Senses (Prometheus Books, 1990). Este artigo foi baseado em seu ultimo livro, The Unconscious Quantum: Metaphysics in Modern Physics and Cosmology (Prometheus Books, 1995).

Notas

[1] Para um exame da medicina alternativa, incluindo “medicina quântica”, veja Douglas Stalker and Clark Glymour, eds., Examining Holistic Medicine (Amherst, N.Y.: Prometheus Books, 1985).

[2] Para uma discussão mais ampla e referências, veja Victor J. Stenger, Physics and Psychics: The Search for a World Beyond the Senses (Amherst, N.Y.: Prometheus Books, 1990).

[3] L. A. Govinda, Foundations of Tibetan Mysticism (New York: Samuel Weiser, 1974), p. 225, como citado em Capra 1975, p. 305.

[4] Veja, por exemplo, Marilyn Ferguson, The Aquarian Conspiracy: Personal and Social Transformation in the 1980s (Los Angeles: Tarcher, 1980).

[5] É claro, em alguns casos essas distribuições podem ser altamente marcadas e assim um resultado pode ser previsto com alta probabilidade, ou seja, com certeza para todos os fins práticos. Na verdade, isso é precisamente o que acontece no caso de sistemas de muitas partículas, tais como os objetos macroscópicos. Esses sistemas então tornam-se descritíveis pela mecânica clássica determinística como o limite de muitas partículas da mecânica quântica.

[6] Para uma discussão mais ampla e referências, ver Victor J. Stenger, The Unconscious Quantum: Metaphysics in Modern Physics and Cosmology (Amherst, N.Y. : Prometheus Books, 1995).

Referências

Bohm D., and B. J. Hiley. 1993. The Undivided Universe: An Ontological Interpretation of Quantum Mechanics. London: Routledge.

Capra, Fritjof. 1975. The Tao of Physics. Boulder, Colorado: Shambhala.

Chopra, Deepak. 1989. Quantum Healing: Exploring the Frontiers of Mind/Body Medicine. New York: Bantam.

___. 1993. Ageless Body, Timeless Mind: The Quantum Alternative to Growing Old. New York: Random House.

Eberhard, Phillippe H., and Ronald R. Ross. 1989. Quantum field theory cannot provide faster-than-light communication. Found. Phys. Lett. 2: 127-149.

Everett III, Hugh. 1957. "Relative state" formulation of quantum mechanics. Rev. Mod. Phys. 29: 454-462.

Goswami, Amit. 1993. The Self-Aware Universe: How Consciousness Creates the Material World. New York: G. P. Putnam’s Sons.

Kafatos, Menas, and Robert Nadeau. 1990. The Conscious Universe: Part and Whole in Modern Physical Theory. New York: Springer-Verlag.

Squires, Euan. 1990. Conscious Mind in the Physical World. New York: Adam Hilger.

Wilber, Ken, ed. 1984. Quantum Questions: Mystical Writings of the World’s Great Physicists. Boulder, Colorado: Shambhala.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A Neurologia das Experiências de Quase Morte


Artigo de Alex Likerman, publicado em Happiness in this World
Traduzido por colaboração de Rodrigo Véras e André Rabelo

Eu nunca tive um paciente que confessasse ter tido uma experiência de quase morte (EQM), mas recentemente me deparei com um livro fascinante chamado O Portal Espiritual no Cérebro (The Spiritual Doorway in the Brain) de Kevin Nelson, que relata que cerca de 18 milhões de americanos podem ter tido uma. Se for verdade, é provável não apenas que alguns dos meus pacientes estejam entre eles, mas também alguns dos meus amigos. O que me levou a pensar: o que exatamente a ciência tem a nos dizer sobre a sua causa?

Que EQMs acontecem não está em disputa. A sequência e os tipos de eventos dos quais elas são compostas são suficientemente similares entre as pessoas que as relatam de tal forma que EQMs poderiam ser consideradas como algum tipo de síndrome, semelhante a uma doença sem causa conhecida. Mas apenas porque milhões de pessoas já viveram EQMs, isso não significa que a explicação mais comumente aceita para elas – que almas deixam os corpos e encontram deus ou alguma outra evidência de vida após a morte – esteja correta.

Afinal de contas, as pessoas interpretam erroneamente as suas experiências o tempo todo (uma ilusão ótica representando o exemplo mais básico). Sem dúvida, muitas pessoas que relatam EQMs são profundamente afetadas por elas, mas, geralmente, mais como um resultado de suas interpretações das experiências (i.e., “a vida após a morte é real”) do que como resultado da experiência em si. Acontece que um número de observações reproduzíveis combinado com uma pitada de conjecturas gerou uma explicação neurológica inteiramente plausível para todos os casos de experiências que incluam EQM.

Em seu livro, Nelson comenta que normalmente 20% do fluxo sanguíneo é direcionado para o cérebro, mas que este fluxo pode abaixar para 6% antes de ficarmos inconscientes (e mesmo nesse nível, nenhum dano permanente será causado). Nelson ainda observa que quando nossa pressão sanguínea diminui demais e desmaiamos, o nervo vago (um longo nervo que se conecta com o coração) desloca a consciência para o sono REM – mas não totalmente em algumas pessoas. Um número de sujeitos parece ser suscetível ao que ele chama de “intromissão REM”.

A intromissão REM ocorre tipicamente, quando ocorre, na transição da vigília para o sono. Nelson descobriu em sua pesquisa que o funcionamento do mecanismo que alterna as pessoas entre o sono REM e a vigília tendeu a ser diferente naquelas que relataram EQMs. Nessas pessoas, ele descobriu que a mudança era mais propensa a “fragmentar e misturar” esses dois estados de consciência (o controle do nosso estado de consciência é localizado no nosso tronco cerebral e é precisamente regulado), fazendo com que essas pessoas exibam simultaneamente características de ambos. Durante a intromissão REM, as pessoas se viram paralisadas (“paralisia do sono”), totalmente despertas, mas experimentando luzes, sensações fora do corpo e narrativas surpreendentemente vívidas. Durante o sono REM, muitos dos centros de prazer do cérebro são estimulados também (animais que tiveram suas regiões REM danificadas perderam todo o interesse em comida e até em morfina), o que pode explicar os sentimentos de paz e unicidade também relatados durante EQMs.



A neurofisiologia também pode explicar o sentimento de estar se movendo através de um túnel, tão regularmente mencionado em EQMs. É bem sabido que pessoas experimentam uma “visão de túnel” imediatamente antes de desmaiar. Experimentos com pilotos girados em centrífugas gigantes têm reproduzido o fenômeno de visão de túnel, aumentando as forças G e diminuindo o fluxo sanguineo em suas retinas (a periferia da retina é mais suscetível a quedas na pressão sanguínea do que o seu centro, de tal forma que o campo de visão parece comprimido, fazendo cenas parecerem vistas dentro de um túnel). Quando óculos especiais que geram sucção foram colocados nos olhos dos pilotos para neutralizar o efeito de queda da pressão sanguínea da centrífuga, os pilotos perderam a consciência sem desenvolver o efeito da visão de túnel – provando que a experiência da visão de túnel é causada por uma redução no fluxo sanguineo dos olhos.

Talvez o aspecto mais intrigante das EQMs seja o quão costumeiramente elas estão associadas com experiências fora do corpo. Isso também, entretanto, trata-se de uma ilusão. Evidências de que experiências fora do corpo nada têm a ver com almas deixando corpos podem ser encontradas na observação de que elas também têm sido relatadas por pessoas acordando do sono, recuperando-se de anestesia, enquanto estão desmaiando, durante convulsões, durante enxaquecas e quando estão em altas altitudes (não há razão para pensar que as almas das pessoas estão deixando seus corpos durante nenhuma dessas situações não ameaçadoras para a vida).

Mas as evidências mais fascinantes de que experiências fora do corpo são fenômenos neurológicos vêm dos estudos feitos inicialmente na década de 1950 por um neurocirurgião chamado Penfield. Ele estava interessado em compreender como poderia distinguir tecidos cerebrais normais de tumores cerebrais ou “cicatrizes” que eram responsáveis por causar convulsões. Ele estimulou os cérebros de centenas de pacientes conscientes no esforço de mapear o córtex cerebral e entender aonde em nossos cérebros nosso corpo físico é representado.

Um paciente sofria de danos no lobo temporal e quando Penfield estimulou a região temporoparietal do seu cérebro, ele relatou ter deixado o seu corpo. Quando a estimulação parou, ele “voltou”, e quando Penfield estimulou a região temporoparietal de novo, ele deixou o seu corpo mais uma vez. Penfield também descobriu quando variava a corrente e a localização do estímulo, podia fazer os membros do seu paciente parecerem encurtados ou produzir uma cópia de seu corpo que existia ao seu lado!

Em o Cérebro Contador de Histórias (The Tell-tale Brain), V. S. Ramachandran descreve um paciente que teve um tumor removido da sua região frontoparietal direita e desenvolveu um “gêmeo fantasma” ligado ao lado esquerdo do seu corpo. Quando Ramachandran colocou água fria no seu ouvido (um procedimento conhecido como teste calórico de água fria, o qual estimula o sistema de equilíbrio do cérebro, conhecido por ter conexões com a região frontoparietal), o gêmeo do paciente se afogou, movimentou-se e mudou de posições.

Neurologistas têm reconhecido desde então que a região temporoparietal do cérebro é responsável por manter a representação de nossos esquemas corporais. Quando uma corrente externa é aplicada nessa região, ela para de funcionar normalmente e nossa representação do corpo “flutua”. Outras evidências de que esse fenômeno é uma ilusão vêm de experimentos nos quais as pessoas que tiveram experiências fora do corpo enquanto passavam do sono para a vigília eram incapazes de identificar objetos colocados no quarto depois que adormeciam, sugerindo fortemente que a imagem que viram deles mesmos dormindo nas suas camas era reconstruída em sua memória. Embora não exista ainda nenhuma evidência de que níveis baixos de oxigênio no sangue causem disfunção da região temperoparietal da mesma forma que uma corrente aplicada, esta permanece como uma hipótese testável e a explicação mais provável.

Em suma, embora longe de estar provada como uma explicação para o que realmente explica as EQMs, a hipótese da intromissão REM tem mais evidências para corroborá-la do que a idéia de que nós realmente deixamos nossos corpos quando a morte está à espreita.

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Mais informações sobre experiências de quase morte:

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Do Calmaria & Tempestade.