"E se um dia ou uma noite um
demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida,
assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e
ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e
cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de
grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do
mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este
instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada
outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!’.”
-
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência.
Trata-se
de um pensamento dos mais fortes de Nietzsche, a ideia de que tudo poderia
acontecer novamente, cada ato da nossa vida, faria adotarmos uma vida melhor
vivida, mais feliz. Chamava-o de Eterno Retorno. A ideia permitiria a atitude
crítica de viver a vida como se ela fosse se repetir infinitamente, um preceito ético genial.
Há
quem diga que ele realmente acreditava que isso pudesse acontecer, não sendo
somente uma metáfora. Há quem faça uma leitura mais crítica, indicam que o
Eterno Retorno não tinha uma conotação temporal, mas uma crítica à ordem das
coisas. O mundo não seria uma convivência de pólos diametralmente opostos, mas
de estruturas complementares de uma mesma realidade. Portanto, o Eterno Retorno
seria justamente a sucessão de instâncias que acharíamos opostas, porém sendo
complementares, como o bem e o mal, a felicidade e a tristeza, etc.
Como
o número de probabilidades de combinações é finita, em algum momento as sucessões
começariam a se repetir, a “retornar” ao ponto inicial indefinidamente.
Mas,
não comecei a escrever isso para falar especificamente sobre o eterno retorno. Escrevi
para relatar meu pensamento sobre a confusão do senso comum sobre o quê
realmente é cíclico.
Limitar
nossa classificação ao que é apenas diretamente observável é um erro. Acreditar
que, por exemplo, o sol vai raiar amanhã simplesmente porque desde que o
observamos ele vem raiando por períodos de tempo iguais (24h), simplesmente não
convence. Não é porque algo se sucede no tempo desde que observamos que irá
suceder da mesma forma no futuro.
E
isto se dá simplesmente porque devemos conhecer as causas desses ciclos. Os
ciclos, quando existem, possuem uma lógica simples, baseada em leis que garantem
sua sucessão. Assim, o sol não raia hoje porque raiou preteritamente, mas
porque a terra gira em torno de seu próprio eixo, transladando o sol, movimentos
explicados de forma concisa pelas teorias atuais.
Trata-se,
pois, de uma observação mais objetiva das causas dos ciclos, não dos ciclos
propriamente, que se daria de maneira severamente subjetiva.
Ocorre
que a ideia de “ciclos” é transplantada imprudentemente dessas observações objetivas
a conceitos subjetivos, ou até mesmo à história. Se vemos algo na história se
repetir, dizemos imediatamente que o evento se repetirá novamente no futuro. Então
inventamos mitos.
Simplesmente
porque vemos o ciclo do dia, do ano, da vida, da lua, etc. tendemos a aplicar
ciclos econômicos, sociais. Nossa vida é baseada em ciclos, porque nossa mente
está habituada a eles. Não é à toa que ritualizamos diversos aspectos de nossa
vida, instituindo datas comemorativas e organizando-a em repetições
indefinidas.
O
pior de tudo é crer em conceitos que, segundo se diz, repetem-se. Por exemplo,
admitindo que houveram sucessivas mudanças econômicas, passando pelo feudalismo
e desemborcando no capitalismo, nada mais natural que ver tal sistema
encontrando um fim e sendo substituído por um outro que também terá seu fim
eventualmente, certo?
Não.
Simplesmente porque estamos vendo o ciclo pelo ciclo. Quando procuramos quais
as causas de tais sucessões, podemos vislumbrar talvez revoluções, mudanças
sociais impactantes, que talvez nunca se repitam. Porém, se sustentarmos que
essas são as causas, percebemos que também seriam cíclicas e demandariam causas
outras. Estaríamos procurando leis naturais em fatos humanos.
Percebemos
então a falta de lógica de tal pensamento. O que me fez me questionar sobre tal
conceito é uma crítica amadora à tripartição compteana do pensamento humano:
mitologia, metafísica, positivismo. Ainda que hajam severas críticas bem
fundamentadas, a crítica amadora da qual falo é que, eventualmente, descobriríamos
um quarto estágio, superando o positivismo.
Não
se tratava de qualquer crítica ao positivismo (que mudou bastante desde sua
conceituação), fundamentando o seu total abandono. Mas tratava-se de uma crítica
absurda, segundo meu ponto de vista: só porque da mitologia se sucedeu a metafísica,
sendo sucedida pelo positivismo, haveria algum outro estágio que o sucedesse.
Não
há nenhuma causa que se baseie em lei-fundamento de uma teoria que, por sua
vez, explique uma sucessão cíclica. Não há nada que permita dizer que o
positivismo (como o entendemos em sua essência) será superado.
O
conceito de ciclo deve ser aplicado apenas àquilo que permita o que aqui foi
demonstrado. Nem mesmo a construção de nossa vida cíclica permite que afirmamos
que, sem sombra de dúvida, sempre comemoraremos o carnaval, por exemplo,
simplesmente porque todo ano o comemoramos. Simplesmente um dia poderemos
dizer: chega de carnaval! (o que está demasiadamente longe de acontecer).
Talvez
estejamos acostumados à ideia de ciclo e por isso mesmo queiramos aplicá-lo a
tudo. Esteticamente é até mais bonito. Por isso retorno ao início do texto.
Concordo
com a impressão nietzscheniana de que aquela divisão que fazemos entre o bem e
o mal, p.ex. é pura ficção, sendo nosso cotidiano a mistura perfeita do que
conceituamos como opostos. Mas se partirmos do entendimento de que tudo se
repetirá porque o tempo é infinito e as combinações finitas, somente muito
tempo para que voltem a se repetir. Durante nossa existência, difícil é aplicar
o cíclico ao que não tem essa natureza.

Muito bom!!!!
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