É inegável que em todo esforço
interpretativo há uma busca pela intenção do autor/interlocutor. Isto porque
todo ato humano é motivado por algo, e se construímos algo, mesmo que um
conceito, fazemo-lo com uma intenção. Por isto tendemos a achar que todo objeto
de interpretação, que por sinal é todo objeto de conhecimento, tem uma intenção,
afirmando deliberadamente que interpretar algo é saber o que aquele objeto “quer
dizer”. Trata-se, portanto, de uma estrutura interpretativa intencional que é componente
de todo tipo de objeto.
A conversa, por exemplo, ainda
que não percebamos, é um trabalho de incessantes interpretações, avaliando não
só a fala, mas também gestos, expressões, remetendo estes a contextos, dentro
dos quais se determina aquilo que foi pretendido pela pessoa que fala. Sem esta
interpretação, a conversa torna-se impossível. Deve-se, obrigatoriamente,
determinar a intenção do interlocutor.
Porém, se o objeto interpretativo
for, digamos, uma obra de arte, tendemos a considerar esta interpretação como
se uma conversa fosse. Mas se fosse uma conversa, a divergência já não será
mais um grande problema. Se digo para um artista que a obra de arte dele faz-me
pensar em uma lenda antiga de alta intelectualidade, convencendo-o que é uma
boa interpretação, tal artista poderá ser convencido que esta interpretação é
melhor ainda que a original, passando a adotá-la.
Assim, Dworkin divide o exercício
interpretativo em três. Um deles é a interpretação construtiva. Se na
interpretação conversacional buscamos gestos, expressões e contextos para
descobrir a intenção do interlocutor, impreterível no seguimento da própria
conversa, na interpretação de obras de arte e de práticas sociais, isto já não
é possível, pois não há uma conversação (ou raramente há), havendo uma busca
interpretativa que constrói um conhecimento.
Inegável também é que haja uma
intenção da parte de quem interpreta. Seja para buscar o ponto de vista do
interlocutor, seja para buscar qualquer outro ponto de vista, há uma escolha a
se fazer. A escolha do intérprete, ato de sua vontade – sua intenção – parece ser
a mais importante, neste caso, e para fazer valer sua escolha perante outros
intérpretes, ele deverá utilizar-se do maior poder de convencimento possível,
argumentando no porquê de ser a sua intepretação a verdadeira.
Por este motivo, não se trata
completamente de ser preponderante a vontade do criador de algo, ou do
interlocutor de alguma mensagem (que de já se desprendeu dele) ser a
preponderante, ou ser a vontade geral, ou alguma outra vontade abstrata.
Trata-se de ser a mais convincente possível através da vontade do intérprete,
que, construindo uma interpretação, ainda que baseada em qualquer das
referidas, convencerá todos de que a sua interpretação é a verdadeira, até que
surja uma capaz de derrubá-la.
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