sábado, 27 de abril de 2013

Interpretação e Intenção - prólogo


É inegável que em todo esforço interpretativo há uma busca pela intenção do autor/interlocutor. Isto porque todo ato humano é motivado por algo, e se construímos algo, mesmo que um conceito, fazemo-lo com uma intenção. Por isto tendemos a achar que todo objeto de interpretação, que por sinal é todo objeto de conhecimento, tem uma intenção, afirmando deliberadamente que interpretar algo é saber o que aquele objeto “quer dizer”. Trata-se, portanto, de uma estrutura interpretativa intencional que é componente de todo tipo de objeto.

A conversa, por exemplo, ainda que não percebamos, é um trabalho de incessantes interpretações, avaliando não só a fala, mas também gestos, expressões, remetendo estes a contextos, dentro dos quais se determina aquilo que foi pretendido pela pessoa que fala. Sem esta interpretação, a conversa torna-se impossível. Deve-se, obrigatoriamente, determinar a intenção do interlocutor.

Porém, se o objeto interpretativo for, digamos, uma obra de arte, tendemos a considerar esta interpretação como se uma conversa fosse. Mas se fosse uma conversa, a divergência já não será mais um grande problema. Se digo para um artista que a obra de arte dele faz-me pensar em uma lenda antiga de alta intelectualidade, convencendo-o que é uma boa interpretação, tal artista poderá ser convencido que esta interpretação é melhor ainda que a original, passando a adotá-la.

Assim, Dworkin divide o exercício interpretativo em três. Um deles é a interpretação construtiva. Se na interpretação conversacional buscamos gestos, expressões e contextos para descobrir a intenção do interlocutor, impreterível no seguimento da própria conversa, na interpretação de obras de arte e de práticas sociais, isto já não é possível, pois não há uma conversação (ou raramente há), havendo uma busca interpretativa que constrói um conhecimento.

Inegável também é que haja uma intenção da parte de quem interpreta. Seja para buscar o ponto de vista do interlocutor, seja para buscar qualquer outro ponto de vista, há uma escolha a se fazer. A escolha do intérprete, ato de sua vontade – sua intenção – parece ser a mais importante, neste caso, e para fazer valer sua escolha perante outros intérpretes, ele deverá utilizar-se do maior poder de convencimento possível, argumentando no porquê de ser a sua intepretação a verdadeira.

Por este motivo, não se trata completamente de ser preponderante a vontade do criador de algo, ou do interlocutor de alguma mensagem (que de já se desprendeu dele) ser a preponderante, ou ser a vontade geral, ou alguma outra vontade abstrata. Trata-se de ser a mais convincente possível através da vontade do intérprete, que, construindo uma interpretação, ainda que baseada em qualquer das referidas, convencerá todos de que a sua interpretação é a verdadeira, até que surja uma capaz de derrubá-la.

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