sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Panotropia - Capítulo I

E aqui vemos nosso amigo John. Ele parece um pouco preocupado, e deveria estar mesmo, foi-lhe pedido um trabalho de quinze páginas, mas não estava nem na metade da primeira. Não culpe o pobre, ele geralmente pensa demais, e isso acaba o atrapalhando, pois neste momento ele não estava pensando nada além do que seria aquele determinado ponto específico do lado esquerdo da janela. Era um tanto grande, em torno de meio centímetro, e seria interessante se aproximar para obter mais informações, mas ele não podia, ele tinha um trabalho a fazer.

Não era um trabalho de escola, o nosso herói – se assim pudéssemos chamá-lo – é um adulto, talvez perto de seus trinta anos, e trabalhava como jornalista científico. Ele não era formado em jornalismo, muito menos em algum ramo das ciências, era talvez um curioso que pesquisava bastante, por isso fora chamado para participar daquela companhia, que acabara de inaugurar um setor específico para notícias científicas.

Porém, como você pode perceber, este é seu primeiro trabalho. Ele queria impressionar, fincar sua bandeira no terreno do jornalismo científico para garantir uma estabilidade financeira, tão sonhada pela raça humana. Ah egoísmo redentor da humanidade! Nada mais importa no mundo quando se tem a estabilidade financeira.

Era mais ou menos isso que John estava pensando no momento, não se sabe se estava sendo irônico, ou se realmente era verdade, não sou onisciente, apenas relato o evidente. Evidente é o que se está passando nesta adorável manhã no quarto de nosso amigo. Não escrevera muito desde que comecei a conversar com você, nem ao menos consultara quaisquer fontes. Estava apenas a olhar fixamente para aquele ponto, aquele diminuto ponto do lado esquerdo da janela.

O sol já se levantara um pouco mais no horizonte e agora você percebe melhor a fisionomia johniana: apesar de parecer abatido, pode ser considerado um rapaz elegante. Não sou muito de descrever minuciosamente as características físicas de quem quer que seja, posso até ser considerada uma péssima testemunha se eu tivesse que descrever alguém para um retrato falado. Mas isto não vem ao caso, pois você o está vendo claramente agora, iluminado inteiramente pela luz do sol.

Tenho de explicar também, infelizmente, este nome singular que o acompanha desde antes do nascimento. Os pais de John já haviam a muito decidido: seria John se fosse homem ou Cho se fosse mulher. Pode parecer estranho para alguém não acostumado a esta realidade extremamente globalizada, mas neste ano, bem diferente do seu, a realidade é também outra.

John tem somente meia hora para terminar o trabalho e não está confortável nesta situação em que se encontra. Mas vamos deixá-lo por um momento e fazer uma visita a Sofia.

Esta garota é quase da idade de John, talvez um ou dois anos mais nova, mais bela, mais rica. É só ver a situação do seu quarto para notar alguns traços de sua personalidade: impecável, nada fora do lugar, milimetricamente organizado e limpo. Você pode notar claramente a diferença entre nossas duas personagens, e deve estar se sentindo – assim como eu – bem mais confortável neste cenário presente.

Neste momento pode-se perceber que Sofia está apressada. Se você prestou atenção, percebeu que ela demora a se arrumar, o que pode ser embaraçoso para nós, que a estamos observando, mas não se preocupe: ela não sabe de nossa existência. Verdadeiramente, passaram-se trinta minutos desde que decidimos pôr nossos olhos nesse cenário, e este era exatamente o momento em que nossa amiga estaria saindo, se não fosse considerada essa tristeza súbita que a invadiu.

Eu conheço sua empatia, caro leitor (ou leitora), mas somos impotentes. Nossas mães já falavam que chorar faz bem, e talvez isso sirva de consolo, já que Sofia estava sofrendo em silêncio desde que naquele dia anterior recebera a visita do seu ex-namorado, avisando que iria trabalhar lá do outro lado do mundo, e que não seria mais saudável um relacionamento. Mas esta é a vida e seus relances talvez não agradem a muita gente, eis o problema da existência.

Talvez sirva de consolo também saber que naquele momento John saía de sua casa e se não fosse o terrível choro de Sofia, os dois se conheceriam. E por que isso não seria bom? Ah cara amiga (ou amigo), a vida é um mistério, mas algumas coisas são tão exatas como uma conta de somar: se Sofia saísse naquele momento, iria chegar em tempo para receber um certo relatório constando o nome de John e recomendando sua demissão, por não ter cumprido com o acordado. Sim, não se espante: nossa querida Sofia é a Chefe do setor no qual John trabalha.

Desta forma, ela teria chamado John, conversado com ele, e como se sabe bem, “a primeira impressão é a que fica”. A primeira impressão, neste caso, seria de que o nosso herói não cumpre com seus compromissos: ora, esta é uma qualidade que se procura em um homem? Porém, Sofia não o teria demitido, não é o mais lógico de se fazer: o setor era uma novidade, precisava de qualquer ajuda possível.

Mas não foi isso o que se concretizou. Sofia ainda demorou quinze minutos para sair de casa, e como é de se perceber, continua impecável, como se não tivesse chorado um instante. Porém, o caos conspira a nosso favor, amigo leitor e amiga leitora. Um novo ônibus só chegaria em mais quinze minutos, dando uma hora inteira de vantagem ao nosso herói. Vantagem para nós que estamos nesta visão cosmológica das coisas, mas ele não percebeu assim.

Chegando ao trabalho, fora chamado para apresentar o trabalho. Nosso amigo é sincero – perceba – e não iria inventar qualquer coisa para se livrar do possível castigo. Mas o mundo não é para pessoas boas, mas para pessoas oportunistas: como você vê neste instante, ele sai cabisbaixo do prédio quase sem rumo, ao mesmo tempo em que Sofia chega apressada do lado oposto, sem nem ao menos notar a existência do tristonho John.

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