sábado, 27 de agosto de 2011

A Filosofia Está Morta.


Esta é uma das frases ditas no último livro de um dos mais célebres físicos contemporâneos e talvez de toda a história, Stephen Hawking, que me causou um espanto. Não é pra menos, é de se esperar que esta fosse a intenção do autor: chocar, quebrar abruptamente um paradigma e enterrá-lo. Foi uma intenção parecida com a famosa frase de Nietzsche de que “Deus está morto”, e é possível que o autor também pretendesse parodiá-la. Os contextos são semelhantes, mas pretendo fazer aqui uma hermenêutica pessoal desta frase, dentro do possível, obviamente.

Primeiramente a frase não diz respeito à Filosofia em seu caráter ampliativo: isto, por si só, já seria uma incongruência lógica, visto que a primeira parte do livro (O Grande Projeto) é uma análise filosófica da ciência. Ademais, a própria frase por aqui discutida é de âmbito filosófico, não sendo cabível a sua interpretação ampliativa. Neste caso, “Filosofia” poderia ser muito bem substituída por “Metafísica”, e aqui adentramos no tópico que eu quero realmente discutir: A Metafísica está morta.

Metafísica, em uma definição simples é a disciplina filosófica cuja ocupação objetiva não está relacionada com o mundo fenomenológico, isto é, é um ramo da filosofia que trata de objetos que não podem ser conhecidos através do método empírico. Algumas das questões tratadas pela metafísica são, por exemplo: há um sentido último para a existência do mundo? A organização do mundo é necessariamente essa com que deparamos, ou seriam possíveis outros mundos? Existe um Deus? Se existe, como podemos conhecê-lo? Existe algo como um "espírito"? Há uma diferença fundamental entre mente e matéria? Os seres humanos são dotados de almas imortais? São dotados de livre arbítrio? Entre outras...

Se você se lembra bem, Auguste Comte instaurou a Lei dos Três Estágios, dividindo a história do pensamento humano em Mitológico, Metafísico e Positivo. O positivismo, etapa final do pensamento humano, é uma superação da metafísica, pois muda o foco da pesquisa racional do “Porquê” das coisas, para o “Como”. Não é mais um foco no “porquê” da chuva, mas no “como” a chuva ocorre, por exemplo. Estas novas perguntas são baseadas, respondidas e comprovadas pelo método empírico, uma medição dos elementos constituintes da realidade observada para caracterizar sua validade.

Ora, é intrínseca a ideia de existência para aquilo que é medido, deixa-se de perguntar se aquilo percebido é o existente, pois este último é aquilo que é direta ou indiretamente medido pelo observador. Não mais são necessários os modelos como “o mundo das ideias” de Platão, pois este modelo não pode ser medido, direta ou indiretamente, nem seus efeitos e nem ao menos as suas causas. Sim, pode parecer surreal (e o é literalmente) o mundo das ideias de Platão como sendo real, mas o filósofo realmente acreditava que havia um lugar com todas aquelas características que ele mesmo havia uma vez imaginado.

E não o culpe, a época na qual ele estava inserido era completamente distinta da nossa e não havia sequer o método científico elaborado como hoje o conhecemos. Ademais, naquela época, reinava o pensamento mitológico, sendo de extrema importância a contribuição de Platão sobre a realidade do mundo.

Mas, é importantíssimo frisar que não estou defendendo aqui o positivismo, ou a divisão histórica que Comte realizou. Minha intenção é primeiramente mostrar a ruptura de pensamento que ocorreu àquela época e que culminou na criação da ciência como a conhecemos atualmente. O próprio Comte defendia ideias que hoje não têm mais sentido: o determinismo da ciência (a mecânica quântica é fundamentalmente probabilística), a observação direta e imediata (os objetos percebidos no mundo são principalmente compostos de espaço vazio, esta é uma observação indireta e mediata), a ênfase do caráter racional em contraposição ao empírico (o buraco negro foi antes conceituado racionalmente para só então ser confirmado empiricamente), entre outros.

Atualmente, para se provar um fato, deve-se prová-lo empiricamente, sendo, até lá, considerado falso. O ônus da prova cabe essencialmente a quem alega a teoria, sua falseabilidade, contudo, pode ser imposta na primeira oportunidade para refutá-la. Por exemplo, se á uma teoria que “Há um corvo vermelho”, ela pode ser provada (testada) com a apresentação de um corvo vermelho. Por outro lado, a assertiva de que “Todos os corvos são pretos” pode ser falseada com a apresentação de um corvo vermelho. Para simplificar, segue o esquema abaixo:

Portanto, talvez fique mais claro agora que a Metafísica está morta pelo simples fato que suas alegações são de ordem fantástica, não testáveis nem falseáveis, fruto de uma racionalidade imaginativa. Porém, não sejamos generalistas, Schopenhauer definiu metafisicamente a Vontade, que em termos atuais se coadunaria ao conceito de Inconsciente, sendo, portanto, uma adaptação belíssima, mas que não retira o seu caráter imaginativo – porém genial. É importante verificar que a alegação de Schopenhauer é testável atualmente, através de MRI’s, por exemplo. – Mas, até sua verificação, deveria ser considerado falso.

Esta é a realidade da Teoria das Cordas atualmente, por exemplo, que explica diversos fenômenos da Mecânica Quântica e da Relatividade Geral, mas que não tem comprovação. É comum a Teoria das Cordas levar o nome de Metafísica pelos físicos mais conservadores, mas isso pode mudar já na próxima década (em uma perspectiva bem otimista).

O caráter crítico, e cético, principalmente, é o que caracteriza esse pensamento, o desconfiar de tudo, até que seja provado que é certo. Da próxima vez que alguém vier com conversas esotéricas, ocultistas, alquimistas, astrológicas, pseudociências, ou até com discursos científicos pouco embasados e controversos, desconfie, critique, tenha como falso até que a pessoa que está alegando prove diferente, este é o método científico.

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