quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Caos e Machado.


"– Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência de outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."

Decididamente, eis um dos trechos mais conhecidos de nossa literatura. O jogo do que aparenta ser contraditório é evidente, até porque a guerra no sentido cotidiano é talvez o pior dos eventos próprios da natureza humana. Mas proponho uma releitura, ou ainda, uma leitura mais detalhada para guiar-lhes em uma das mais belas teorias com as quais já me deparei.

Para tanto, vale lembrar da dialética hegeliana, segundo a qual a história é feita de diversos pontos contraditórios que começam com uma Tese, seguida de uma Antítese, com ideias opostas ou conflitantes, para desemborcar em uma Síntese, algo como um “justo meio” entre ambos, que reúna as melhores ideias e as mais sensatas. Esta Síntese, portanto, torna-se uma nova Tese, e o processo se renova.

Esse processo é muito próximo do conceito literal da guerra. Poderíamos de logo imaginar dois grupos de filósofos, ou escolas de arte, debatendo entre si, cada um refutando argumentos uns dos outros. O que surge é a Síntese: em algum momento nasce alguém para reunir o melhor de ambos e revolucionar.

“É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela bailarina”, já dizia Nietzsche. E ele tem razão: a guerra, ou o caos, parece mesmo em algum ponto, quase que sem explicação, dar à luz a harmonia, que por sua vez se desmancha em mais caos, e cria mais harmonia. O que parece paradoxal, tem um sentido verdadeiro.

Mas, porque o caos surge e porque ele gera a harmonia? Primeiramente é importante destacar as definições. Caos é uma propriedade matemática segundo a qual não se é possível definir deterministicamente seus eventos futuros. Isto acontece porque uma propriedade de um sistema caótico é a retroalimentação (retorno de informações do efeito para a causa de um fenômeno), e que, por este motivo, a predição sai do controle: até a mínima variável é capaz de modificar todo o sistema.

Retomando o ponto inicial podemos analisar a “guerra” como sendo uma interação entre pessoas, ideias, enfim, elementos quaisquer do sistema social. Esta guerra, diferentemente da guerra que destrói vidas, constrói. Constrói não somente vidas, mas ainda mais ideias que vão contribuir para um novo movimento do sistema social, dando-lhe essa dinâmica por nós conhecida.

A supressão de um elemento, neste contexto, ou de quantos forem os elementos envolvidos, dará luz a um novo, uma síntese que será aclamada por todos. Se esse embate não ocorresse, se por algum acaso as “guerras” fossem vencidas sem essa dialética, não só uniformizaria o sistema, deixando-lhe estático, como impediria o progresso social e filosófico.

A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação.

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