sábado, 12 de novembro de 2011

Microtextos #2

1. A vida humana se resume na tentativa constante de ser melhor que o outro, e na afirmação, ainda que falaciosa, de que esta condição é verdadeira.

2. A razão humana é produto da própria natureza externa a ela. A natureza molda a razão humana para apreciar o empirismo, na medida em que a inteligência é aprimorada através dos processos evolutivos. Conclui-se que a razão é produto da realidade, não o oposto.

3. O propósito é uma qualidade dos seres viventes, portanto o propósito da “vida” inexiste, já que assim a estaríamos personificando. O ser humano pode definir seu propósito, porém é influenciado desde pequeno por seu meio, cabe a ele, como ser “livre” que é, libertar-se o máximo possível dos grilhões desse meio e conquistar seu propósito verdadeiro.

4. É inútil querer seguir apenas o que é prático. O que é hoje, não tarda a deixar de ser. Precisa-se pensar a vida, para adequar-se ao devir.

5. Não estamos preparados para a razão. Nossa emoção cega a lógica: o que pensamos ser lógico é afetado pelos nossos sentidos, por isso eles não podem ser negados. É necessário seguirmos nossas emoções.

6. Nada é realmente novo ou inventado, tudo é uma (re)descoberta.

7. Esses charlatães são criminosos piores que os homicidas: não só aniquilam a vida, mas as ideias.

8. O Humanitas* se vê sob a túnica do Estado, cosido pelos elementos que o compõem, numa tentativa inútil de dominar a Besta.

9. Nós consumimos ou nós que somos consumidos? O capitalismo nos consome porque é disso que ele precisa para se nutrir: pessoas que o fortaleçam, pessoas que perdem suas vidas em seu nome, pessoas que não são mais pessoas, mas produtos de consumo em si mesmas, marcas personificadas que nascem para serem livres, mas que morrem sem conhecer a liberdade. Pessoas por conveniência, de existência simbólica, engrenagens da máquina capitalista, polidas desde a infância, doutrinadas, enganadas, modeladas para servir ao grande Deus dinheiro.

10. Justiça é o remédio imediato da injustiça, esta sendo um elemento próprio da nossa sociedade. Para vencer a injustiça, portanto, não se deve remediá-la, mas mudar a essência da natureza social, através de métodos que condicionem os comportamentos para que hajam conforme a justiça.

11. Se estes capitalistas pudessem comprar mais horas do que um dia tem, comprariam apenas para trabalhar mais e conseguir mais dinheiro. O dinheiro gera dependência: quanto mais se tem, mais se quer. Como conseguir viver com tal agonia?

12. Não se crê em pessoas, mas em evidências. Também é preciso avaliar evidências de um modo imparcial, sem apenas aceitar aquelas que colaborem com sua ideia, mas todas existentes. Seja seu maior inimigo na avaliação de evidências, a imparcialidade não é natural ao ser humano, deve ser forçado.

13. É um equívoco admitir que tudo é relativo, o mais correto seria inferir que em tudo há um grau de relativismo. Diz-se grau pois o universo admite certas constâncias e previsibilidades.

14. Estamos condenados a desistir de nossa consciência em prol de uma vida estável e “bem-vivida”. Ora, se nascemos condenados a sermos livres, isso não deveria implicar a impossibilidade de nos tornarmos escravos? Somos aqueles que, apesar de nossa situação, defendemos a liberdade como um princípio do Ser: talvez hipocrisia? Talvez ignorância? Conveniência ou superstição? A consciência, para ser livre, necessita primordialmente cumprir seu papel: conhecer-se, descobrir-se na condição em que se encontra. Ainda que impossível seja a plena liberdade, a escravidão é apenas uma escolha.

15. Muitos costumam negar a existência do acaso, “nada é por acaso”, costumam afirmar. A vontade de ter sua vida sob controle é uma constante nos seres humanos, e por bem, já que assim evitaríamos o desconhecido, ou simplesmente confiaríamos mais no porvir. Acontece que o acaso é tão mais belo que um futuro fechado, tão quadrado...

16. Nós somos nossos corpos, seus desejos são nossos desejos. Toda a irracionalidade e instinto, é o que somos. Por este motivo somos livres, pois as limitações impostas pelos nossos corpos são também nossas limitações. Nem sequer podemos negar um instinto, mas ponderá-lo de acordo com as situações, admitindo que somos animais com um pouco de racionalidade...

17. Não há sequer um aspecto da vida que seja péssimo. Se por acaso houver uma definição que não dê margens a otimismos, isso é porque você interpreta como um pessimista, baseado em seus princípios pessoas. Neste caso, não é a realidade que seja péssima, foi você quem errou ao escolher os seus princípios. (no caso schopenhaueriano, por exemplo, não há pessimismo, mas uma perspectiva sobre uma mesma realidade que é interpretada como péssima.)

18. Há uma mania de dicotomia que me incomoda. Grandes problemas do homem se resolverão quando percebermos que corpo e mente são um só. Só há o corpo, suas limitações são nossas limitações, por isso somos livres, desde que convivamos com esse princípio. Pelo mesmo motivo a felicidade pode ser alcançada por um hedonismo epicurista.

19. Se algo é banido apenas por ser contra os “bons costumes”, somente por este motivo deveria ser reivindicada sua permissão: o problema não é o fato proibido, mas os próprios costumes que são pervertidos por ideias tolas.

*Conceito que estou elaborando despretensiosamente, utilizando a terminologia machadiana, depois falarei algo, é basicamente um conceito metafísico equivalente a um conjunto social que se comporta de maneira mais ou menos uniforme.

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