sábado, 5 de novembro de 2011

Liberdade

1.Somos seres livres?

A uns seis meses atrás eu responderia que não, que era impossível compreender a mente humana como algo livre, e diria que somos escravos de nosso próprio corpo. Isso pode ser constatado em um documentário que vi a algum tempo chamado "Science of Lust", que mostra homens comprando óculos escuros. São dadas para eles duas opções: comprar uns óculos comuns, cuja popularidade é alta, ou uns extravagantes, cuja popularidade é baixa. Se a venda de óculos é feita na frente de uma loja qualquer, o homem prefere os óculos normais, mas quando a barraquinha de vendas se move para a frente de um sex shop, os homens magicamente passam a preferir os óculos mais extravagantes. Ora, nada mais natural, ao ver o sex shop, o nível de testosterona no sangue sobe, e o homem passa a preferir algo que o destaque e o faça parecer o macho ideal para o acasalamento. Isso não se limita ao homem, muito menos à testosterona, hormônios ou outros fatores quaisquer podem modificar o comportamento humano e o induzir a decidir numa disparidade enorme em relação ao comportamento normal.

A liberdade, pensava eu, não existiria justamente porque nós sempre decidimos baseados nas necessidades do nosso corpo, e estamos demasiadamente limitados nesse sentido. O que me fez mudar de opinião foi a ideia do monismo. Monismo é a corrente teórica da filosofia da mente que afirma não existir a alma, sendo o corpo e a mente uma coisa só, difere do dualismo, tendo esta por princípio a divisão entre mente e corpo. Se eu encarasse de uma maneira dualista, como ocorre no cristianismo, jamais poderia afirmar que o livre-arbítrio é uma realidade, pois a liberdade de nossa alma é limitada severamente por nosso corpo. - no cristianismo também há uma ideia fortíssima de destino, já que Deus sabe de todo o futuro, e portanto este resta limitado. - Mas resolvi abrir os olhos. Nós somos nossos próprios corpos, e isso nos faz seres livres, pois já não podemos falar em escravidão, não existe uma limitação de liberdade de um ente (corpo) sobre outro (alma).

Basicamente, uma relação de não-liberdade justamente necessita de uma dualidade, o que nos faz lembrar que, neste sentido, podemos não ser tão livres assim. A imposição de ideologias é o clássico exemplo de limitação de liberdade, pois demanda um sujeito que estabeleceu a ideologia como verdadeira, e aqueles seus seguidores que a incorporaram como se sua fosse. Livre, nesta perspectiva, é aquele que deixa de ouvir a análise fenomenológica feita pelos outros e passa a ver o mundo diretamente, a ser um sujeito cognoscente propriamente dito. Tudo me faz lembrar muito bem da máxima "não confie nas pessoas, confie nas evidências", e isso se faz necessário para resguardar nossa bendita liberdade. Sim, eu levo em consideração que há influências intersubjetivas a todo o momento e que somos produtos dessas relações, mas isso é o normal esperado, não se trata de uma escravidão de uns pelos outros, mas um acidente, como tantos outros, de nossa própria natureza. Diferentemente ocorre na imposição de ideologias, já que há um propósito, ainda que implícito, de dominação e egoísmo quase psicótico.

Sim, nascemos seres livres, e somos seres livres desde que aprendamos a dizer não às ideias sem fundamento, que foram a nós parcialmente introjetadas.

Fuja de tudo que limite sua liberdade, olhe para o mundo, conheça-o.

2. Outra parte vital para entender esse problema do livre-arbítrio e sua saída é a questão da mimesis. Mimesis é a capacidade de aprendizagem observacional que todo ser humano possui como instinto. É algo fatalista, pois, fora daqueles pré-conhecimentos estabelecidos em nossos genes, tudo que somos provém de aprendisagem observacional, ou seja, da mimesis. Quando percebemos certa pessoa realizar determinada ação, avaliamos seus resultados. O instinto se encarrega de elencar aquele comportamento como digno de ser repetido se dele provêm bons resultados. Mas o que é bom depende de pessoa para pessoa, e nisso as coisas começam a se complicar, pois o julgamento de cada pessoa também provém de aprendizagem mimética.

Nessa perspectiva, a sociedade é uma rede retroalimentativa de mimesis que se torna caótica pelos elementos exteriores novos que a natureza dispõe. Mas aí encontramos outro problema, pois ao enfrentarmos situações novas, não nos desprovemos completamente da mimesis, mas adaptamos nossas experiências semelhantes para obter um resultado também satisfatório. A complexidade da sociedade surge exatamente dos elementos novos que introduzimos acidentalmente, procurando obter o mesmo resultado já uma vez alcançado. Não se trata aqui de uma análise filosófica sobre a inexistência do livre-arbítrio, mas uma constatação científica.

Essa última frase foi colocada para, a contra-senso, afirmar a existência da liberdade de decisões.

A primeira coisa a se lembrar do texto anterior é que não somos entidades flutuantes presas a um corpo. Se pensados assim, nós caímos no fatalismo de negação da liberdade. Somos nossos corpos, e tudo que o limita já deve ser tomado como ponto inicial para se definir o que é liberdade. Se encararmos a mimesis como um instinto, é o nosso instinto, e portanto deve ser ignorado na nossa definição de liberdade, visto que não existiria algo mais livre para afirmarmos que nossa liberdade é menor que ela. Nessa rede mimética da sociedade, nós ainda temos poder de escolha, e, ainda que pareça ser mínima, comparada a um ideal de liberdade total de um ser também ideal, é certa pois é o máximo possível em nossa existência. Somos livres por sermos o mais livres possível.

3. Certo, acostumados agora à ideia que a liberdade não se resta suprimida, é importante passar à sua definicão, já que me parece que a liberdade, da forma aue venho tratando, já assumiu um aspecto bem diferente do que estávamos acostumados. Não se trata de uma definição certa e outra errada. O problema que quero eliminar é que a definição de liberdade como previamente conhecida era de uma liberdade inexistente, que fatalmente acabaria por consumir-se, como um Eresictão da fome insaciável.

A liberdade, pois, tem de ser definida com os nossos corpos como ponto inicial. Mas também tem relação com o poder de escolha. Não podemos, por exemplo, decidir contra o nosso corpo, pois vai ser ele mesmo quem vai decidir em primeiro lugar. Digamos que eu esteja com fome e decida não comer. A decisão foi feita por nós, pelo nosso corpo, e se a vontade de não comer parte dele, não contrariamos nossos instintos!

Liberdade é, pois, o poder de escolha que nós, pelos nossos próprios corpos, possuímos, que é máxima, ainda que aparente conter limitações.

Eis o mistério da Vontade.

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