
O homem nasceu para amar. Este aspecto, apesar de reducionista, não deixa de ser verdade. Mas, de certa perspectiva, todos os atos realizados pelo homem têm um intento de propagação da espécie. O amor aí deixa de ser a finalidade e passa a ser o meio, ou um dos meios, que levarão à bem-sucedida propagação dos genes. Desta forma (note que é uma perspectiva), nós estudamos para conseguirmos um bom trabalho, imaginando que bons trabalhos são os que propiciam uma melhor remuneração (além, claro do bem-estar), para podermos ter mais fundos para financiar a construção de uma família.
Tal construção é o fim, para o qual somos levados sob uma força invisível a qual Schopenhauer denominou Vontade para a vida, ou simplesmente Vontade. Posteriormente Freud usaria o inconsciente para justificar as mesmas situações – Freud era assíduo leitor de Schopenhauer. Ora, não temos consciência das nossas finalidades no mundo, mas algo nos impulsiona fortemente para algum lugar. Schopenhauer cai na metafísica para explicar diversas situações, mas tais explicações podem ainda ser aproveitadas.
Voltemos um pouco no tempo e nos deparamos com a definição kantiana de que a coisa-em-si é impossível de ser por nós verificada tal como ela é na natureza. Adicionemos a sábia constatação schopenhaueriana que nós mesmos somos coisa-em-si, e chegamos a conclusão de que é impossível para nós conhecermos uns aos outros e, infelizmente, a nós mesmos.
Isso não somente é constatado pelas análises metafísicas de Kant, que definia que nossa percepção acabaria por interferir sempre na apreciação do objeto, mas pela própria complexidade do ser humano, aliada a sua constante mutabilidade, que sugeririam que sempre que o sujeito cognoscente terminasse o exame de todas as características possíveis de uma outra pessoa, ela já haveria se transformado em uma completamente diferente. A indeterminância, nesse caso, gera angústia.
Desta forma, parece extremamente plausível que quando alguém ama outro, não há um mútuo conhecimento. Na verdade, não é a outra pessoa que é amada, mas uma representação dela, construída pela aprendizagem, bastante distorcida e frágil na mente do sujeito amante. Todos os atos provocados pela outra parte, até que aleatórios e não condizentes com sua personalidade, são analisados e internalizados como se formassem a figura do sujeito amado.
Assim como não é possível conhecer a pessoa-em-si, não é possível amá-la. Isto gera um problema tão grande que faz parte do próprio funcionamento da Vontade. E este problema é o final de um relacionamento. O relacionamento é importantíssimo para a Vontade porque é ele quem, precipuamente, dá continuidade aos nossos genes através da criação da prole. Pode parecer óbvio, mas não é aproveitável um relacionamento duradouro, haja vista a falta de diversidade genética que resultará. Muito mais aproveitável são vários relacionamentos durante a vida.
Assim, a Vontade usa a impossibilidade de se conhecer a pessoa-em-si para proveito próprio. Se o sujeito amado vir a agir em discordância com a sua representação existente na nossa mente, ocorre o que é comumente chamado de “decepção”. Atitudes não esperadas são capazes de gerar decepções, ainda que sejam da própria natureza das pessoas, mas não de suas representações, que tendem a ser simplistas. O caso é extremado quando pensamos ser justamente o oposto, e que a pessoa, de uma hora para outra, passou a se comportar fora de seus padrões.
O ponto alto é que há formas de contornar esta situação. Uma delas é saber desta condição. Sabendo que nunca se conhece realmente alguém, e principalmente sabendo que haverá decepções cedo ou tarde, há uma preparação psicológica do porvir, que implica um amortecimento das emoções futuras. De Schopenhauer podemos aprender que para realmente amar alguém, é preciso estar preparado para deixá-lo.
Esta é a sabedoria de um homem mal compreendido como pessimista. Schopenhauer nos dá uma saída para uma das maiores problemáticas da vida, que, apesar de ser feita de decepções, de quedas, pode ser bastante aproveitável se nos aventurarmos a entendê-la.
Muitíssimo bom! Um dos melhores do blog. Parabéns. =)
ResponderExcluirUm texto maravilhoso. Muito bem escrito.
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